Procurando dentro do blog

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Dentes posteriores

Oi pessoal,
voltando a escrever hoje. Tivemos uns dias bem difíceis aqui em casa. Os dentes posteriores da pequena estavam nascendo. Nossa! Já tivemos episódios anteriores com dentes, mas esse, com certeza, foi o pior até agora. Era muita baba. De molhar a camiseta constantemente. Além disso, a baixinha passava o dia intolerável e acordava gritando de dor por volta de três horas da manhã para só dormir às seis quando o remédio fazia efeito e o cansaço a vencia. 

Realmente me considero uma mãe para toda obra, mas uma semana sem dormir direito e uma criança sem fome, febril, inquieta e birrenta o tempo inteiro tira a energia de qualquer uma (todo o meu respeito às mães e pais que cuidam de filhos doentes). Foi um exercício de empatia grande. Um desafio para minhas convicções. Afinal, mesmo com toda a sistematização da educação, da maneira como lidar em situações de estresse, o cansaço constante (seu e da criança) faz com que você comece a duvidar do que é certo.

E o que mais me assombrava nesses dias de terror (nos quais, graças a Deus, eu estava de férias) era a falta de perspectiva de melhora. Pois, por um dia ou outro, você até pode ceder, ser mais permissivo com a criança em virtude da dor, do desconforto, da situação transitória. Mas eu calculava que se ficasse cinco dias daquele jeito para cada dente que fosse nascer, a rotina seria totalmente alterada. Ou seja, mesmo na situação passageira, alguma coisa de rotina precisaria existir.

E foi horrível! Bia, que não é de recusar comida, chorava copiosamente a cada refeição. O almoço todo dia demandava uma paciência e uma abnegação que não nos é peculiar. O esforço era para que ela experimentasse. Depois de muito choro, ela provava, para começar a chorar de dor. Mesmo lutando para manter a rotina, tem horas que é preciso jogar a toalha. Foi muita mamadeira nesses dias. Se ela estava tomando o leite, estava ótimo. Nós insistíamos nas refeições para que ela provasse, mas, se depois de provar ainda quisesse o leite, que tomasse o leite.

Descobrimos também o mix de frutas da Nestlé. Tenho total consciência que não é tão bom quanto a própria fruta. Que mesmo que eles digam que não tem conservantes, tem. E tudo mais. Porém, a consistência dessa vitamina e, principalmente, o fato dela ser vendida gelada nas farmácias facilitou um pouco a nossa vida. Sempre que precisávamos sair e Bia não aceitava comer nada, em geral, ela topou um desses pacotinhos e deu para segurar até estarmos em condições de oferecer um outro tipo de refeição.

Para lidar com o mau-humor constante. E que mau-humor! Resolvemos enchê-la de atividades. Percebemos que a dor não deveria ser intensa, mas sim constante. Chegamos a essa conclusão porque durante o dia ela tinha momentos de concentração em que não reclamava, mas na hora de dormir, quando os interesses serenavam, a inquietação aumentava, era como se ela se desse conta de que o incômodo não iria passar e que teria que dormir com aquilo. Foi muito difícil colocá-la para dormir nesses dias, exigiu paciência, certa dose de firmeza e remédio de uso tópico para aliviar a dor e a consciência.

De maneira que o segredo do sucesso foi lutar para garantir o sono a ferro e fogo se fosse necessário (pelo menos uma hora para ela não ficar insuportavelmente chata) e enchê-la de atividades. Detesto sair com a Bia sozinha. É carro. É trânsito. É bolsa. É criança. Tudo numa responsabilidade só, acho demais, pelo menos para mim. Mesmo assim, levei-a para passear no parquinho e ver os patinhos nadando numa praça aqui perto de casa. Em outro dia, coloquei as boias de braço pela primeira vez nela e partimos para a piscina. A atividade a distraía, diminuía a birra e melhorava a qualidade do sono. Acho essa dica importante, pois quando estamos cansados com as crianças, achamos que elas vão compreender e sossegar. Nada disso. Elas ficarão como abelhas zunindo e agitadas. A melhor forma de descansar, nesse momento, é propor uma atividade que os deixe concentrados. A piscina, para nós duas, foi até relaxante.

Também foi eficiente o picolé de melancia. Cortei a melancia com formas de biscoito e coloquei no congelador. Bia ficou mordendo a fruta que congelou. Tanto ela comeu quanto aliviou um pouco a dor e o incômodo. Funcionou bem. Pode tentar.

Assim, os dias foram passando e, na quarta-feira, depois de uma madrugada infernal, de uma luta intensa para dormir depois do almoço, a Bia dormiu de duas da tarde às cinco e meia. Acordou outra criança. Comeu. E a vida foi voltando ao normal aos poucos. Ela ainda está pedindo muito a chupeta. E a gente percebe que é para mastigar bem nos dentes de trás, onde deve estar coçando. Então, estamos deixando. A baba também continua, mas deu uma regredida (era muita mesmo, tadinha). E o humor mudou da água para o vinho. Nossa filha voltou. Ainda bem!!!

Se você está passando por algo semelhante, paciência. Acho que aprendemos uma importante lição com a dentição, ela é, muitas vezes, nosso primeiro contato com a dor dos nossos filhos. É desesperador não poder fazer nada. Por outro lado, é mais do que importante construir laços fortes de confiança nessas horas, para que eles saibam que estaremos ali mesmo quando não houver mais nada a ser feito.

E foi por isso que quase não escrevi na semana passada. Estava cansada demais para ler, escrever ou produzir qualquer conteúdo. Fiquei na dedicação exclusiva. Mas essa semana devo ir voltando ao normal. Beijos.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

Tesourinha e a Bruxa

Adoro essa autora: Diana Wynne Jones. Para mim, o Brasil, no seu afã de consumo e pouca consciência literária, deixa-a num lugar obscuro das prateleiras, mesmo tendo publicado as maravilhosas séries Os Mundos de Crestomanci e O Castelo Animado. Para você que gosta de fantasia, vale demais a leitura.

Diana, que morreu em 2011, foi aluna de C.S. Lewis (Crônicas de Nárnia) e Tolkien (se não sabe quem é, saia do meu blog). Ela escreveu mais de quarenta livros de uma fantasia pura, harmonizando mágica, universos paralelos, criaturas incríveis, de uma maneira espetacularmente criativa.

Esse livro aí do lado é um continho infantil. Sobre uma menina esperta que é feliz vivendo em um orfanato, mas, de repente, é adotada por uma bruxa e um demônio. A mágica funciona nesse universo sem questionamento, exatamente como funciona na cabeça das crianças. Elas certamente vão se identificar com as espertezas da menina que tenta sobreviver nesse novo contexto caótico de gatos pretos, caldeirões e castigos mágicos. O final é bastante inusitado para quem domina o gênero fantasia, mas as crianças vão aceitá-lo com facilidade.

Tesourinha e a Bruxa tem um trabalho gráfico primoroso. É um livro lindo  de se ver. Letras grandes, espaçamento duplo, páginas curtas, ilustrações encantadoras. Tudo para facilitar o processo para esse público em contato recente com a leitura. Acho que ele é indicado para crianças de nove/dez anos. Agora, cuidado na hora de comprar. Como já disse anteriormente, nessa faixa etária, é importante acertar no interesse da criança, ou se corre o risco de dar um presente que ela vai considerar enfadonho. E piorar a relação com a leitura. Caso magia seja de interesse, é uma boa proposta.

Editora: Galera Júnior
124 páginas
Preço: R$28,90


quinta-feira, 21 de janeiro de 2016

RELICÁRIO

Resolveram celebrar sua união em uma festa no final da tarde. As cem pessoas mais importantes de suas vidas estavam ali naquele jardim para comemorar com eles o dia que diriam sim para a eternidade. Certeza essa que já carregavam no peito por bem mais de dez anos e que só cresceu em cada ano de namoro.
O céu colaborou e se tingiu de tons de laranja e vermelho. Os convidados estavam encantados com a criatividade e a delicadeza da decoração feita. Uma estrutura de madeira decorada com flores foi montada para simular a nave. Penduradas nela, pequenas velas dentro de garrafas flutuavam suspensas por fios acima da cabeça das pessoas. Os convidados foram distribuídos em duas longas mesas como se estivessem no salão comunal de Hogwarts.
Os padrinhos foram os primeiros. As roupas eram informais, nada de terno, nem vestido longo. Cada um trazia uma referência aos gostos que partilhavam com os noivos. Vini colocara uma camiseta com o Shiryu e uma calça social. Ana Maria usava o vestido e a peruca de Princesa Leia. Pedro estava com o boné do Mário. Joaquim escolhera um cosplay de Gambit. E Milena estava vestida de Arwen. Eles chegaram ao altar ao som de É tão lindo, do Balão Mágico.
Então André apareceu com sua mãe. Usava um meio fraque com a camiseta amarela do Charlie Brown por dentro. Dona Heloísa lhe deu um beijo no rosto. A Marcha Imperial começou a tocar e eles caminharam até o altar.
Visivelmente emocionado, ele acompanhou a pequena orquestra tocar o tema de O Poderoso Chefão e seu pai entrar no seu campo de visão de braço dado com Dona Marlene. Seu coração dava pulos. Faltava bem pouco para vê-la. E era somente isso que desejava. Mostrar ao mundo o poder do que sentia por Mariana.
Então, a orquestra tocou a versão instrumental da abertura dos Cavaleiros do Zodíaco e as crianças fizeram a participação delas. Alice, Tito e Paola. Mulher-maravilha, Homem de Ferro e Sailor Moon. André e os demais convidados deram gargalhadas quando a pequenininha começou a correr do meio do caminho para o braço dos pais.
Estavam todos prontos para o ápice da celebração. Os últimos raios de sol esperavam para iluminar a figura de Mariana, misturando-se a cor natural de seus cabelos. Sua figura surgiu no horizonte e André chorou. As lágrimas não abalaram o seu sorriso. Eram apenas a manifestação de uma alegria que não conseguia conter. Dona Heloísa chorou junto. O filho estava feliz. Ele seria feliz.
Mariana usava um guarda-chuva amarelo, um vestido branco curto e cheio de tule, o cabelo solto e o All Star azul dado por sua mãe que combinavam perfeitamente com o preto de cano alto que André calçava. A música de Nando Reis preenchia não somente o espaço, mas também o passado deles. Aquilo era o certo.
Mário a entregou a André com um abraço. Os olhos verdes dela estavam marejados. Os dele molhados. Sorriram. André beijou suas mãos e a conduziu ao celebrante que falou palavras de amor e compromisso. Anos depois, reconheceriam que nem ouviram aquelas palavras, pois, naquele momento, trocavam tantas outras que só os seus corações conseguiam entender, muito mais sinceras e verdadeiras.
Nervosos, acompanharam de mãos dadas todo o procedimento, não saberiam dizer quanto tempo se passou até o juiz pedir as alianças. A pequena Alice entregou uma pokebola ao celebrante que precisou da ajuda de André para abrir. Os dois anéis, exatamente como os forjados em Mordor, com seus nomes gravados em élfico, apareceram. E cada um pegou a aliança que colocaria no outro. Chegara o momento dos votos.
─ Eu te prometo sempre carregar uma toalha. – Ele começou e ela riu. – Prometo te deixar ganhar em qualquer partida de qualquer jogo de vídeo game e treinar até passar nas fases caso você não consiga sozinha. Prometo gostar de Goonies pelo resto da minha vida e só assistir esse filme se for com você. – Colocou a aliança no dedo dela. – Prometo amar cada detalhe seu, por mais irritante que seja. E te empurrar da cama cedo quando você precisar, mesmo correndo risco de vida. – Todos riram nesse momento. Mariana podia ser agressiva caso precisasse acordar cedo pela manhã. – E, principalmente, prometo dedicar quantos mais minutos de existência eu tenha para cuidar da minha rosa vermelha que cativou em mim o que tenho de melhor. Eu te amo, Pequena.
─ André, eu te prometo a família de Lílian e Tiago. Eu te prometo a eternidade de Aragorn e Arwen. Eu te prometo o tesão de Gambit e Vampira. E a dedicação de Pepper a Stark. – Ela colocou a aliança nele. – Mas, acima de qualquer coisa, eu te prometo que o nosso amor vai ser sempre tão puro quanto o de Charlie Brown e sua garotinha ruiva. – A voz dela embargou e as lágrimas que segurava começaram a cair. André a beijou. Todos aplaudiram. Até os convidados nas mesas se levantaram.
Já na festa, todos os padrinhos ergueram seus sabres de luz na hora do brinde. O casal abrira a pista de dança abraçadinhos com O que eu também não entendo, do Jota Quest e depois chamou os amigos para chacoalhar ao som de Twist and Shout dos Beatles.
Mariana jogou o seu buquê de rosas vermelhas que caiu direto nas mãos de Milena. Diante desse aviso celestial, a moça resolveu aceitar o milésimo convite de Guilherme para dançar.
No mais, foi tudo exatamente como planejaram. Da mesa de coquetel estilizada como um laboratório de poções, com direito a bartender fantasiado de Professor Snape e malabares de fogo aos doces modelados de leite com casais famosos, Lucy e Schroder, Rony e Hermione, Homem-aranha e Mary Jane.
Por volta da meia-noite, a festa estava no fim. A maioria das pessoas já tinha ido. Ficaram apenas os mais amigos. Mariana ainda dançava nos braços do marido.  Não queria que acabasse nunca. Mas o que tinham não acabaria mesmo. Ela olhou para a tatuagem que ambos fizeram no pulso. O triângulo, o círculo, a reta. As Relíquias da Morte. Uma lembrança de que o que estavam vivendo era superior à morte.
─ Tudo pronto, Deco? – Vini veio bater no braço do melhor amigo.
─ Prontíssimo. Manda ver. – Ele confirmou. Mariana não entendia o que estava acontecendo, mas já se acostumara com as surpresas de André.
─ Mais uma de suas promessas cumpridas, meu amor? – Beijou o rosto dele. – O que mais falta para a perfeição, DSG?
─ Calma, Pequena. Faltava só um detalhe. – Ele a beijou. Fogos começaram a estourar no céu. – É que toda novidade faz barulho.


***

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Quem soltou o Pum?

No domingo, fomos passear na Livraria Cultura e no meio de todos aqueles livros infantis maravilhosos, reencontrei esse que é um sucesso.

Nós já falamos aqui no quanto as piadinhas de pum são atraentes para as crianças quando comentamos o Até as Princesas Soltam Pum. Então, a fórmula continua a valer na tentativa de chamar a atenção das crianças nessa divertida historinha de um menino e seu cachorro, oportunamente batizado de Pum.

Serão inúmeros trocadilhos sobre soltar ou não o Pum, na sala, na chuva, na festa. O cheiro e o barulho do Pum vão incomodar as pessoas. Mas, como o menino mesmo chega a conclusão, tem uma hora que é impossível segurar o Pum. 

O melhor desse livro da Companhia das Letrinhas é que você não precisa ser um leitor muito experiente para encantar as crianças. O tom da história é de seriedade. Você lê na sua voz de adulto mesmo e, aos poucos, os trocadilhos vão dando o tom divertido. Impossível não se divertir com as aventuras do cachorrinho de nome esquisito.

O livro fez tanto sucesso que já tem continuação. Todas igualmente divertidas e interessantes. Meu favorito, entretanto, é mesmo o primeiro. Como de costume, é um livrinho relativamente caro, gira na casa do R$30,00. Mas é garantia de sucesso nas festas de aniversário. Já dei de presente umas quatro vezes e sempre com elogios por parte dos pais.

Com relação à idade, li a primeira vez para a Bia nessa visita à livraria. Ela gostou e foi até o final (o que é raro para quem nem tem dois anos). Uma amiga relatou que a filha de três anos adorou a história, mas não percebeu o trocadilho com o nome do cachorro (interessante!). Mas acho que o ideal do livro é por volta dos quatro anos, chegando ao ápice nos meninos de seis/sete que só falam mesmo de coisas nojentas, esses vão adorar.

terça-feira, 19 de janeiro de 2016

Bambolim

Oi, gente,
estamos vivendo dias difíceis aqui em casa. Os dentes posteriores da pequena estão nascendo e ela está um dengo só. Não dorme direito. Só quer colo. E parece uma portinha velha de tanto Nheeem. A gente está medicando, dando carinho, mas, nesses casos em que o incômodo é inevitável, o melhor é distrair. Por isso mesmo, o fim de semana foi intenso.

Nessa época de chuva em Fortaleza, percebemos que não existem muitas atividades voltadas para as crianças pequenas em espaços fechados. Acabamos condenados aos shoppings. Esse foi um final de semana de shopping lotado. Dentro dessa perspectiva, resolvi apresentar um espaço novo o Bambolim. Trata-se de um desses parquinhos de shopping, planejado especificamente para crianças pequenas. Imagino que receba bem crianças de até uns oito anos. Depois disso, acho que as crianças vão preferir os espaços com games.

O Bambolim fica na parte mais nova do Shopping Iguatemi, no piso superior (se você pegar a escada rolante que fica em frente ao Extra, é uma das primeiras lojas). Visualmente é muito bonito, com uma decoração diferenciada e vários espaços, tobogã, piscina de bolinhas, armário de fantasias, cama elástica, espaço de leitura, casa da árvore e uma outra infinidade de brinquedos. Até aí, mesmo com a decoração bacana, parece bastante com o já conhecido Clube das Estrelinhas que tem em todo shopping. O diferencial da marca são os monitores e as propostas de atividades.

Segundo o site, veja aqui, o Bambolim nasceu de uma proposta de colônia de férias, da relação familiar entre uma dona de escola, uma administradora e um educador físico. É uma boa mistura e eu espero que dê certo. Dessa maneira, dentro do parquinho, para além dos brinquedos e dos monitores que apenas zelam pela segurança dos pequenos, existem recreadores que efetivamente promovem atividades, oficinas de culinária, contação de história, competição de brincadeiras populares. a programação é vasta e atualizada no facebook, se quiser curtir e acompanhar, clique aqui.

Os preços são razoáveis para o padrão shopping. R$20,00 os primeiros trinta minutos e mais R$10,00 a cada quinze minutos adicionais. Para a minha filha de quase dois anos, trinta minutos é mais do que suficiente. Pode até ficar 45, mas vem com a língua de fora. E o dia de brincadeira ganho.

Achei muito bonitinho e recomendo. 

Não foi a primeira vez que fomos. Inclusive, vou contar algo que aconteceu dentro do parque e que me deixou mais tranquila. Na primeira vez que a Bia foi (crianças da idade dela não ficam sozinhas, então o Raphael acompanhou), dentro da piscina de bolinhas, uma criança de cinco anos ficou agredindo a Bia (Infelizmente isso acontece. Não vou entrar hoje nos méritos dos motivos desse tipo de crianças. Mas essa é uma figura bem comum nos parquinhos de maneira geral), puxava a perna dela por debaixo das bolinhas, beliscava, um horror. A Bia, que adora piscina de bolinhas, ficou com medo e não quis entrar mais. Ficava na borda olhando. O monitor então sugeriu que o Raphael entrasse na piscina. A atitude inibiu a criança agressiva e deu confiança a minha filha. Fiquei satisfeitíssima com a presença de espírito do monitor. Sei que ele não pode tirar a criança agressora pagante do brinquedo, mas fiquei feliz dele ter reparado no pequeno trauma que talvez a situação causasse na minha pequena e ter conseguido contornar a situação. Se foi sorte ou treinamento, não sei, mas o parque ganhou pontos comigo.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Fim da série

O post só sai na segunda, mas resolvi escrever hoje mesmo, pleno sábado. 

Acabei de terminar um conto da sessão Relicário, o casamento de André e Mariana, caso interesse saber. Deve ser publicado qualquer dia desses. E fui, a medida que escrevia, percebendo que os personagens e seus destinos já foram tomando rumo próprio. Os seus futuros se delineiam aos poucos. Alguns diálogos surgem na minha mente. Decido como vou me posicionar como narradora e autora. Que pontas vou fechar. Que pontas vou deixar abertas de propósito.

E decidi ter esse papinho com vocês sobre o processo que leva aos três livros finais da série Nando. E são três? Você disse que seriam 2. Já mudou de ideia? Não. Estou organizando os contos de Relicário para formar um sétimo livro da série. Exatamente como eles foram publicados aqui. Se você não leu, dá uma olhada aqui. Até agora são doze, mais o do casamento, vamos para treze. Tive a ideia de escrever sobre um encontro entre Eleonora e Gisele, mas não sei se vai para frente. Ainda vou discutir com minhas seguidoras fieis. Mas não está nada definido. Seria o décimo quarto conto. E o último já sei como será, dará fim a uma ponta solta que deixarei no sexto livro. Vou escrevê-lo em breve, mas só publicarei perto do fim da série.

Sobre a ajuda das minhas leitoras, não sei se vocês percebem o quanto ajudam no processo. Ajudam muito. Principalmente com ideias. Eu não tinha a menor intenção de escrever sobre o casamento de Mari e Deco, embora soubesse que ficariam juntos para sempre. Em uma conversa informal, uma amiga disse que adoraria ver os filhos deles. Fiquei sem entender, porque realmente nunca imaginei a Mari mãe. Acredito que não exista nada que a desabone para o papel, só não a vejo dessa maneira maternal. Não hoje. Enfim... Mas daí fiquei com aquilo na cabeça. E cheguei à conclusão que essa vontade de ver os filhos vinha de uma noção de ciclo fechando. Como se os filhos dessa geração pudessem ser amigos como eles são entre si. E a ideia não me desagradou. De alguma forma, vou satisfazer esse desejo, mas de maneira mínima para não ficar brega estilo Harry Potter.

Para atingir esse objetivo, eu precisava passar por cenas que nem esse e nem o próximo livro vão trazer. O casamento de André e Mari está entre essas cenas. Para vocês verem, já começa tudo a ir para o seu devido lugar na minha cabeça. Já decidi, por exemplo, que o sexto livro não terminará no casamento de Vini. Já decidi como se chamarão os filhos de alguns personagens, posso até dizer que haverá um menino chamado Ben e uma menina chamada Paola.

Por isso meninas, comentem, conversem, digam o que gostariam de ver e saber sobre os personagens nessa reta final. Sei que pode ser constrangedor. Se sei. Nessas férias, um amigo meu, garoto, a quem conheço faz mais de dez anos, leu Do Seu Lado. Ele ficou impressionado. Teceu elogios. Mesmo assim, foi difícil agir com naturalidade para mim. É esquisito falar dos meus personagens e reconhecer o que eles levam de mim pelos olhos dos outros. Semelhante coisa aconteceu com uma amiga que disse que chora nos meus livros. Gente. Eu não choro. Já não sou chorona. Quanto mais com meus personagens. Às vezes, tempos depois, leio alguma coisa que escrevi e penso "que fofo" ou "que lindo", como se não tivesse sido eu quem tivesse escrito (acontece, por exemplo, com a primeira declaração de Vini), mas nunca chorei. Fiquei imaginando se essa amiga me achou insensível. Talvez boçal. Mas é só vergonha de reparar como o que escrevo toca as pessoas, quem sabe mais do que toca a mim.

Com relação ao livro cinco, estou numa parte meio morosa do processo. Acabei de escrever um capítulo sobre Pedro e sobre como às vezes contamos mentiras na intenção de dizer as verdades que gostaríamos de viver. Agora estou escrevendo sobre Joaquim e deixando lá todos os elementos para fazer você se apaixonar por ele. Tomara que concordemos sobre as decisões que serão tomadas pelos personagens. Ou, pelo menos, espero que eu consiga convencer você da autenticidade delas. Não está nada fácil. Mas as metáforas estão ajudando a perceber que Taís é uma menina mais intensa do que o que ela mesma percebe de si mesma e que a maturidade dos anos, com certeza, vai deixar vir a tona um furacão de ideias que ela guarda em si.

Ana Maria vai dilacerar meu coração. E eu quero muito que ela consiga ser feliz apesar de tudo. Acho que vou precisar trabalhar melhor em mim o sentido de perdão. E Vinícios, o queridinho de todas vocês, está mudando. Está amadurecendo. Será que gostaremos da pessoa que ele vai se tornar? Acho que sim. É impossível não gostar de Vini.




quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

RELICÁRIO


Estava nervosa. Olhava o relógio de instante em instante para saber se estava atrasada. Não estava. Era sua primeira grande matéria. A primeira vez que escreveria por conta própria no jornal em que trabalhava desde o final do ano anterior. Entrara como estagiária de esportes cobrindo pequenas competições e, aos poucos, foi ganhando a confiança do editor-chefe. E agora aparecia essa oportunidade maravilhosa.
Fora mesmo uma sorte ter conseguido a entrevista. Tantos tentaram sem êxito. No próprio jornal, o colunista de Arte e Cultura tentara um milhão de vezes. Mas, pelo jeito, o passado falara mais alto. Para ela, bastara uma ligação para a pessoa certa. Joaquim.
Não se viam havia anos. Desde que ele viajara para estudar. Joaquim alcançou rapidamente uma carreira meteórica. Ainda estava na faculdade quando suas tirinhas começaram a fazer sucesso, primeiro no jornal local da sua cidadezinha nos Estados Unidos, depois no Times. Depois no mundo inteiro.
Agora ele tinha quadrinhos e livros com as suas melhores tiras, acabara de vender para o maior estúdio de Hollywood um segundo roteiro para a continuação do filme de sucesso baseado em sua obra e estrelado pela atriz queridinha dos adolescentes e viera ao Brasil exclusivamente para uma série de entrevistas de divulgação do primeiro longa, á totalmente estourado nas bilheterias. Era simplesmente inacreditável estar numa salinha de produtora chique esperando para conversar com um amigo de colégio desse porte.
O talento de Jota era inquestionável. Taís já sabia disso quando tinha quinze anos. Ele sempre tivera uma sensibilidade fora do comum. E uma percepção do mundo aguçada, capaz de uma empatia incrível. Não à toa seus quadrinhos eram sobre meninas. Meninas jogadoras de futebol. O quadrinho tinha o nome do time fictício que defendiam: Huntress. A Caçadora, em português.
No quadrinho, Joaquim descrevia o cotidiano de um grupo de meninas que lutava contra o preconceito para montar um time de futebol. E também sobre toda a dificuldade que as meninas encontram no dia a dia por conta do machismo de maneira geral. Taís se apaixonou por elas logo nas primeiras tiras que leu. Principalmente por Diana, a protagonista de longa trança loira, briguenta e turrona, disposta a tudo pelo time, incansável nos treinos e nas disputas de bola.
Taís se reconheceu imediatamente.
Ela estava ali naquele papel. Eternizada aos quinze anos de idade. Podia ver toda a sua determinação de adolescente pelo traço preciso de Jota. Era tão fiel que até se pegava se lembrando de si mesma, das suas expressões faciais de garota, um bico zangado, uma ruguinha de raiva em cima do olho direito. E os diálogos? Quase conseguia se imaginar dizendo boa parte das falas dos personagens.
A essa altura do campeonato, dez anos depois, Taís já levara tantos nãos da vida que aprendera a ser bem mais cortês. Traçava novas estratégias além do combate direto. Abaixava mais vezes a cabeça do que alteava a voz. Mas encarava Diana como uma singela homenagem a menina que um dia fora e a pessoa que ela ainda gostaria de ser. Vencendo os desafios de uma sociedade marcada pelo patriarcado.
Estava acostumada a isso. A carreira de jornalista esportiva não era nada fácil nesse sentido. Seus colegas de trabalho debochavam dela as escondida. Muitos atletas se negavam a lhe dar entrevistas. Principalmente os famosos jogadores de futebol. Ela perseverava e vencia cada degrau da escada do sucesso. Aprendera a usar seu sorriso perfeito, seu carisma natural e o insaciável desejo dos homens para arrancar a informação que queria.
Seus olhos azuis iluminavam a câmera. Não foi complicado conseguir um lugar na frente dela. O difícil era convencer os editores de que era capaz de escrever suas próprias matérias. Dedicava-se. Estudava as estatísticas. Sabia mais sobre tipos de toque de bola, regras e contratos assinados do que qualquer um dos seus colegas homem. Mas a desconfiança pairava sobre a sua cabeça a todo o momento. E o medo de errar era enorme.
Finalmente, o acaso lhe dera a oportunidade que tanto desejara. A chance para mostrar o seu talento e deslanchar de vez no meio jornalístico. Por coincidência, recebia essa chance da mesma pessoa que a apresentara ao jornalismo.
Mesmo depois de tanto tempo, ainda guardava no coração um carinho especial por Joaquim. Ainda guardava em casa os desenhos que ele fizera e tudo que lhe escrevera. Na época, sabia que ele seria grande. Não tão grande quanto um sentimento com o qual não souberam lidar. Algo que era mais intenso do que sua cabecinha adolescente conseguira compreender. Mas que ela admirava. E do qual ela assimilara toda a verdade.
Hoje, entendia bem melhor das coisas. Mais madura, sentia na pele a certeza de ter sido alguém muito significativo na vida de outrem. E aquilo a tocava profundamente. Toda aquela situação a tocava profundamente.
Então, quando a produtora perguntou “Are you ready?” pela segunda vez, ela segurou o microfone, respirou fundo e entrou no corredor pronta para reencontrar o garoto que lhe dera seu primeiro beijo.
Joaquim continuava quase o mesmo dos tempos de colégio.  O mesmo rostinho de garoto bom. O sorriso sempre no canto da boca, uma mistura de timidez e autoconfiança que era só dele. Os cabelos escuros e lisos. A postura meio largada. Mas certamente andara malhando. Não era mais o menino franzino de antigamente.
Porém, vestia-se exatamente como antes. As calças frouxas cheias de bolsos. A camiseta descolada por baixo e uma camisa de botões aberta por cima. Os tênis mais confortáveis e rabiscados do mundo. Era bom saber que ele ainda customizava seus sapatos.
Ele já tinha dado cerca de quinze entrevistas quando ela entrara na sala. Estava sentado em uma daquelas cadeirinhas de entrevista com o cartaz do filme por detrás. Conversava animadamente com os seus produtores em inglês. Não a viu chegar. Taís também não se sentiu à vontade para interromper.
A produtora, sem muita paciência, empurrou-a sala adentro. E Joaquim finalmente a viu. Ela acompanhou o semblante dele mudar com o reconhecimento. Viu que analisava a pessoa que ela se tornara.
Não passava de uma menina descabelada da última vez que se viram. Agora era uma mulher de salto alto, corte Chanel e calça skinning. Usava maquiagem e microfone. Era uma adulta de vinte e cinco anos tentando ser alguém na vida. Bem diferente dele que já era alguém. Alguém famoso.
─ Taís... – Ele abaixou o olhar em sinal de respeito. Um gesto tão dele que foi como se tivessem estado juntos ontem. – Você está estonteante!
─ Obrigada. – Disse ainda sem jeito. Sem saber bem o porquê, sentiu a necessidade de encostar nele. Saber se era mesmo real. Hesitou com vergonha, mas perguntou mesmo assim. - Posso te dar um abraço, Jota? – Pela forma como ele colocara as mãos nos bolsos, sabia que também sentira exatamente a mesma coisa e também tentava se controlar por vergonha.
─ Por favor. – Ele abriu os braços e ela correu para abraçá-lo da maneira mais forte que conseguiu.
─ Que saudades de você! – Seu coração disparara. Nunca imaginara que fosse se sentir assim.
─ Também senti muito a sua falta... – Disse praticamente em seu ouvido a apertando bem dentro dos braços.
─ Obrigada pela entrevista. – Não queria sair daquele abraço, mas o momento tinha tempo contado. – É muito importante para mim.
─ Era o mínimo que eu deveria fazer por você, minha musa inspiradora. – Jota sorriu e se afastou. Mostrou a cadeira de entrevistadora a ela. Taís respirou fundo novamente e se sentou. – Não sei se você conseguiu perceber alguma semelhança entre minha personagem principal e alguém que conhecemos...
─ Eu me sinto lisonjeada. – De maneira displicente, Taís segurou na mão esquerda de Joaquim que pousava no braço da cadeira. Ele segurou a mão dela com carinho, detendo-se em cada detalhe, no esmalte de cor forte nas unhas bem tratadas, nos dedos longos, na ausência de anéis.
Ao segurar a mão de Taís, Joaquim deixou à mostra a parte inferior do antebraço que a camisa não cobria. E lá estava ele, tatuado de verdade, o escorpião que tantas vezes ela o vira desenhar ali.
─ Então, você fez mesmo essa tatuagem? – Passou a mão delicadamente pelo desenho.
─ Claro. – Olhou fundo dentro dos olhos dela. Taís até perdeu o fôlego. A presença inteligente de Joaquim voltava a mexer com ela de uma forma diferente. – Certas situações marcam a vida da gente para sempre. A pele é a melhor tela para expressar esse tipo de coisa.


***