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sábado, 30 de julho de 2016

Do Seu Lado - Capítulo 3

Oi, gente,
hoje estou comunicando a postagem do terceiro capítulo de Do Seu Lado no Youtube. Para quem não sabe, resolvi publicar meu primeiro livro no youtube. Está em formato de slides. Estou publicando os capítulo às quartas e aos sábados. Deem uma passadinha por lá.

Olhaí:

Nesse capítulo, a vida de Malu começa realmente a mudar. Pois o filho do seu padrasto, um rapaz chamado Antonio, vem passar as férias de final de ano com eles. Antonio é incrível. De tão divertido, vai ganhar a amizade de Malu e despertar o interesse de suas colegas de escola. E talvez esse interesse dê início às mudanças que a moça tanto espera que aconteçam...

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Cachorros Não Dançam Balé

Bia finalmente está entrando no clima das historinhas. Ela já consegue acompanhar um enredo com começo, meio e fim. Por isso, está na hora de dar o gás na leitura dessa biblioteca infantil que venho construindo desde que descobri que estava grávida.

Essa semana, experimentamos o delicioso Cachorros Não Dançam Balé, de Anna Kemp. Com ilustrações de Sara Olgivie. Editora Paz e Terra. Lembro-me que comprei esse livro em uma das minhas buscas em livrarias. Geralmente, compro os meus livros pela internet, o preço é bem mais em conta, mas, em se tratando de infantis, adoro lê-los e folhear. Sempre acabo comprando alguma coisa ou pelo preço ou pelo encantamento. Foi o caso de Cachorros Não Dançam Balé. As ilustrações são muito fofas e a história inusitada traz uma mensagem importante.

O livro é a história de um cachorro chamado Filé (se você acompanha o blog, já percebeu que a utilização de animais é comum nos livros infantis. O animal diminui o impacto das emoções mais fortes). Filé é o bichinho de estimação de uma esperta menininha. Ela logo percebe que seu cachorro é diferente dos outros, ele não gosta de apanhar a bola, mas fica fascinado por pessoas dançando na televisão. 

A menininha aceita de cara a paixão do cachorrinho pelo balé e até a vontade que ele sente de usar tutu. Já o pai da garota não aceita que o bichinho a acompanhe nas aulas de dança, nem aceita que cachorros queiram dançar balé. Filé faz todas essas coisas escondido. Sem se importar muito com o que os outros vão dizer. E como tem censura nesse livro. As pessoas na parada de ônibus, a família, a ´professora de balé, ninguém aceita que um cachorro queira dançar balé.

Minha filha, que anda muito empática com os personagens, pedia para acabar com a leitura todas as vezes que alguém desacreditava o cachorrinho. Tanto orgulho dela que já percebe o que é certo e errado. Precisei dizer para ela que no final ia ficar tudo bem. E fica mesmo. Filé se apresenta num grande balé e as pessoas estranham no começo, mas ele é tão talentoso que o livro acaba com muitos aplausos.

Achei o livro ótimo. É sobre vencer desafios e sobre aceitar diferenças. Não podemos deixar de perceber que, facilmente, poderíamos trocar o cachorro Filé por um menininho. Um menino diferente. Que não somente gosta de dançar. O que por si só já seria audacioso, mas um menino que faz questão de usar tutu. Um menino diferente de outros meninos. Entendeu do que o livro trata?

Note que a menininha aceitou facilmente os gostos do cachorrinho e quem foi o primeiro que implicou? O pai. A figura masculina. Além disso, a autora faz questão de mostrar que o cachorrinho não gosta apenas da dança. Gosta de balé. O estilo mais associado ao feminino. E gosta de usar tutu. Não é preciso usar tutu para dançar, não é mesmo?

É um tema forte. Disfarçado por personificações e ilustrações fofinhas. Claro que é uma metáfora para todo os tipos de diferenças. Mas talvez seja uma excelente porta para abrir o diálogo entre um pai que não aceita que cachorros dancem balé e um filho que não gosta de fazer as mesmas coisas dos outros menininhos.


quarta-feira, 27 de julho de 2016

Do Seu Lado - Capítulo 2


Oi, gente,
hoje estou deixando no meu canal mais um capítulo do meu primeiro livro. Ainda estou caminhando nesse negócio de vídeo e de canal. Se tiver um tempinho, vai lá, lê, se inscreve, compartilha. Aquele negócio todo de youtuber...

Esse é um capítulo que mostra mais a personagem principal através da sua convivência familiar. Nos meus livros, pais e filhos compartilham características. E vocês vão perceber, com a passagem dos capítulos, como a personalidade de Malu vai sendo moldada a partir dos seus pais: Helena e Fernando.

Mil beijos e espero que gostem...

terça-feira, 26 de julho de 2016

Hipocrisia, eu quero uma para viver...

Hoje vou escrever um post em um molde que não gosto muito, principalmente porque não verifiquei as fontes (não por falta de tentativa), mas é incrível como num mundo com tantas informações, algumas coisas, aquelas que "não interessam ser mostradas", simplesmente somem. Neste sábado, na minha timeline, apareceu um depoimento de um jovem, depoimento provavelmente curtido por algum dos meus alunos. Eu estava meio ocupada, meio fazendo mil tarefas ao mesmo tempo no computador e não reparei direito no post, li por cima.

Tratava-se de um relato de violência. O jovem relatava ter sido agredido, por estar beijando seu parceiro, em plena Praça da Gentilândia no Benfica. Para quem é de fora, que fique claro, que o bairro (e essa praça em específico) é um conhecido reduto LGBTS. Assim como a Pracinha em frente ao shopping Aldeota era um conhecido reduto de pessoas que gostam de animes e cultura geek. Assim como o Condomínio Uirapuru é conhecido por promover eventos religiosos. E, na minha cabeça, se você não gosta do que acontece nesses lugares, simplesmente não vá. Porém...

Mas o melhor (se é que dá para usar essa palavra nesse contexto) está por vir. Os agressores. Nada mais nada menos que vendedores de drogas. Isso mesmo. Os traficantes locais bateram no casal. Diz-se, aliás, que isso está virando prática comum do lugar. Não é lindo? Traficantes preocupados com a moral e os bons costumes? Provavelmente, tementes a Deus. 

Antes que as cabeças toscas comecem a raciocinar, vamos esclarecer alguns fatores. Você, preconceituoso de carteirinha, vai dizer: mas a culpa é dos viados que usam drogas. Perdidos. Merecem mesmo. E blá, blá, blá... Vomitando imbecilidades sem fim. Gays e héteros usam drogas. Aliás, para e pensa, que tipo de atendimento ao cliente é esse por parte do tráfico: eu vendo para você e eu te bato. Não acho que seja um marketing eficiente. Acho que é melhor o pague um leve dois ou até o chiclete com a figurinha, mas vou deixar você tentar encontrar desculpas para isso...

Na minha cabeça, o que une droga e homossexualismo é uma coisa só: a lixeira social. O lugar onde jogamos tudo aquilo que o "cidadão de bem" não quer ver. Pois, cerceados de sua liberdade de ir e vir, os homossexuais precisam de espaços que os aceitem. Infelizmente, hoje em dia, esses lugares são guetos escuros, na calada da noite, escondidos por n subterfúgios, lugares onde nem a polícia faz questão de chegar. E a droga, como tudo mais que não presta, também circula por lugares assim.

Falta um pouco de raciocínio dedutivo aí, gente, estamos misturando causas e efeitos. Gay não é igual a droga. Gay não é igual a promiscuidade. Embora existam gays que usem drogas e existam gays promíscuos. Mas, na verdade, o que é que eu tenho a ver com isso? Nada. A questão desse post, por sinal, passa mais por essa inversão de valores. É o traficante ensinando moral. É a violência reprimindo o amor. E tudo isso regado por um egoísmo imenso. Afinal, jogamos essas pessoas nos guetos. E até nos guetos, eles apanham. Até nos guetos eles morrem. E parece que isso é o certo a se fazer pelo bem comum.

Mesmo que o relato não seja verdade. Os números da violência contra a comunidade LBTS são alarmantes. E a sociedade tem lutas muito mais importantes a vencer do que ir contra os direitos básicos dos homossexuais e outras definições. Direitos que qualquer cidadão tem. Enquanto houver houver lacicismo, pelo menos. E Deus permita que isso continue a existir, porque da última vez que religião e justiça se misturaram foram mil anos de trevas e escuridão. 

A luta contra o consumo de drogas. A legalização. A conscientização da juventude. O acesso aos centros de apoio. A violência gerada por esse câncer social que é a droga. Tudo isso é tão mais relevante do que dois rapazes se beijando em uma praça. E, ainda assim, essas bandeiras de ódio explícito continuam a ser erguidas e heróis fascistas surgem com cada vez mais força, amparados apenas pela raiva e pelo egoísmo.

A idiotia é o mal do século, sem sombra de dúvida. Enquanto escrevo, penso naqueles que colocarão o homossexualismo e o vício no mesmo patamar. Acusando-me de hipócrita. Afinal, "duvido que ela queira que a filha veja dois homens se beijando". Em primeiro lugar, não me incomodo um milímetro com dois homens se beijando na frente da minha filha, contanto que se mantenha o decoro, isso vale para casais de qualquer natureza, inclusive para héteros como eu e o pai dela e cachorros grudados no meio da rua. E, ainda assim, caso ela veja algo "inapropriado para a idade", tudo é oportunidade para diálogo e conversa. 

Em segundo lugar, de certa forma, o pensamento preconceituoso tem alguma lógica, pois existe mesmo uma relação entre vício e homossexualismo. Tanto o viciado como o gay não tem saúde. Saúde, se tomamos por base a OMS (organização sanitária vinculada à Organização das Nações Unidas), seria  “estado de completo bem-estar físico, mental e social, e não somente a ausência de enfermidade ou invalidez”. Por esse ponto de vista, viciados e homossexuais estão no mesmo barco, pois dependem do poder público para alcançar essa saúde de bem-estar físico, mental e social. E, definitivamente, nenhum desses dois grupos e suas interseções merecem a lixeira social em prol de um "cidadão de bem", categoria, aliás, que eu nem acredito que exista de fato.

segunda-feira, 25 de julho de 2016

Micaretinha do Shopping RioMar

Ontem, por coincidência, a pequena acordou mais cedo do soninho da tarde. Provavelmente por conta da quebra do nosso ar-condicionado. Aqui em casa, estamos todos morrendo de saudades dele. Quase entendo a raiva que a nossa classe média alta tem de pobre em avião, afinal, luxo é uma droga mesmo, depois que você se acostuma com ele...

Enfim, a gama de possibilidades para o domingo à tarde se abriu, pois, em geral, não conseguimos fazer programas antes das cinco pela logística do cochilo da tarde da Bia. Como em todos os finais de semana, olhei a programação infantil no grupo do Facebook - Programação Infantil de Fortaleza (peça para se inscrever aqui). E vi a proposta da Micaretinha do Shopping RioMar.

Esse evento, pelo que entendi, tinha relação com o Fortal (carnaval fora de hora que já comemora 25 anos na cidade). Acho que a ideia era incluir as crianças e os pais foliões nesse clima de carnaval fora de época, férias e celebração da alegria.

Bom, nós estamos sempre dispostos a topar coisas novas, embora eu e meu marido sejamos bem pouco chegados a axé, mas, como era uma coisa infantil, resolvemos experimentar.

O evento estava fofo. Trio elétrico em som possível de conviver. O local foi o estacionamento do shopping que fica na parte da sombra. Tinha pouca gente e havia segurança e barraquinhas para suprir a s necessidades básicas como líquidos e comidinhas. a brisa estava batendo e o ambiente estava gostoso. Certamente, o shopping teve uma bela iniciativa.

Infelizmente, entretanto, apesar da seleção de axés ter sido escolhida para as crianças, ou seja, o que ouvi era axé das antigas (tipo: "vou dar a volta no mundo, eu vou, vou ver o mundo girar" e "Alô paixão, alô doçura"), nada de duplo sentido, o que definitivamente exige esforço da escolha da playlist, ainda assim, era axé. E só axé. 
Eu esperava uma musiquinha infantil, mas também não fiquei tempo suficiente no evento para saber se rolou ou não. Até deve ter rolado em algum momento. O caso é que a minha pequena não curtiu muito. Tampouco o pai dela. E eu, que geralmente sou a que insiste para tentarmos um pouco mais a atividade nova, também não ia ficar lutando para ouvir axé.

Preferimos o tradicional passeio no shopping. Taí a nossa foto fingindo que estamos adorando o programa e que curtimos todas as músicas. Mas a verdade é que a gente demorou mais para chegar no local, já que o estacionamento em que deixamos nosso carro era do outro lado do shopping do que ouvindo o trio elétrico. Nada contra, viu, gente. Só não é mesmo o nosso estilo.

Falando nisso, teve um tempo na minha vida que eu fui no Fortal. Nem gostava muito. Achava sempre puro a xixi. Depois, passei a detestar o Fortal. Porque eu não ia, mas minha vida era cerceada pela mobilidade urbana da área em que eu morava, perto da Avenida Beira-mar, onde o evento acontecia. Hoje, que o Fortal se mudou para a Cidade Fortal, eu quase que o adoro. Nas mesmas proporções que gosto do Halleluya. Deus conserve esses dois eventos. E, para completar, nesse fim de semana, ainda teve o Encontro de Mulheres Pague Menos. Resultado: cidade vazia, lugar para estacionar, serviço bom. Afinal, Fortaleza inteira estava nesses eventos. E foi ótimo não estar em nenhum deles. Adoro a cidade assim, cada um na sua, fazendo o que quer, sem falar mal das escolhas e das opções de lazer dos outros.

sábado, 23 de julho de 2016

Projeto Novo

Tem coisas na vida que é preciso ter coragem para fazer. Começar um livro, por exemplo. Mostrá-lo para alguém. Deixar que alguém veja o que você escreveu. Que compartilhe das suas ideias. Ou pior, que discorde delas. Quem lê acha que, de maneira inocente, estamos em todas as palavras, em todas as atitudes dos personagens. Particularmente, não concordo. Acho que escrever é também um exercício de empatia, uma forma de se enxergar pelos olhos de outros. Mas isso não vem ao caso hoje.

Estou escrevendo para falar dessa sensação de covardia quando estamos diante de algo novo. Quando nos propomos a tentar. Enfim, quando colocamos a cara a tapa. A primeira coisa que vem à mente é o medo do vazio e da solidão. Enquanto escrevo no meu quarto, não vejo os rostos de ninguém. E penso nas palavras jogadas no universo, como se não houvesse resposta. Como se eu falasse sozinha. Todos os dias, eu crio coragem para compartilhar meus links no facebook, sempre pensando se estou incomodando alguém com essa propaganda de mim mesma. Daí eu penso que é difícil que eu incomode mais do que as notícias nacionais e clico em "compartilhar".

Ainda espero os comentários no post. Ainda espero ansiosamente pelas pessoas que se inscrevem no blog. É um exercício muito bom de paciência para o ego. Tenho que me conformar que sou apenas um grãozinho de areia nessa imensa praia chamada internet. O sucesso não chega fácil. O sucesso não é para qualquer um. Atinjo poucas pessoas. E a consciência disso me faz pensar em desistir às vezes. Por outro lado, quando comecei, o blog tinha tão poucas visualizações diárias. Não passava de dez, na verdade. Quase todas minhas. E hoje, todo dia as visitas giram em torno de sessenta (bem mais que isso de vez em quando). Sessenta pessoas que gastam o seu precioso tempo para saber o que eu estou dizendo. Quase duas salas de aula. Para ler. Coisa que não é comum.

Sei que muitos são meus alunos. E que gostam de ver uma outra faceta da minha vida exposta. Afinal, aceitar uma licenciatura é o mesmo que assinar um contrato para participar de um Big Brother eterno, em que só a morte é capaz de te eliminar. Aluno adora e sempre vai adorar saber da vida de professor. Como se a gente tivesse um tipo diferente de vida. Nem vou entrar nesse mérito...

Acontece que, nesse processo, venho arrebatando gente amiga. Que me lê. Que me entente. E que, de alguma forma, se identifica com o que escrevo. E isso é um incentivo grande. Ainda que as proporções sejam pequenas.

Escolher se expor, em qualquer situação, é uma escolha difícil. Do outro lado da tela, é possível julgar sem identificação. É possível zombar e não sofrer maiores consequências (na maioria das vezes). Então, alguma coisa muito forte tem que motivar essa escolha de se colocar diante do mundo. No meu caso, é o desejo de partilhar meu trabalho e de ser reconhecida por isso um dia. Quero tanto que mais gente leia meus livros, que eu arrisco. Morrendo de medo. E morrendo de vergonha. Que fique claro.

E é assim com esse novo projeto. Depois de mais um desprezo, resolvi tentar algo diferente. Vou colocar meu primeiro livro no youtube. Em forma de slides. Um capítulo por semana.

Está tosco. Não sou boa de edições. Não sei mexer em programas de vídeo adequadamente. E meu gosto é duvidoso na questão da imagem. Mas estou fazendo o possível.

Além disso, o trabalho é enorme. As ferramentas são complexas. Existem inúmeras questões que envolvem direitos autorais. E transformar uma obra de uma plataforma para outra é sem sombra de dúvidas um trabalho complicadíssimo. Mas eu vou tentar.

Gostaria muito que vocês vissem. Que me dissessem o que acham da ideia. E que me acompanhassem nessa nova empreitada. Então, lá vai. Porque nenhum caminho, por mais longo que seja, começa sem um primeiro passo...


sexta-feira, 22 de julho de 2016

RELICÁRIO


Ele tentava manter o foco, enquanto ela fazia as perguntas. Eram perguntas interessantes sobre empoderamento feminino, o esporte como ferramenta de desenvolvimento social, preconceito. Joaquim estava impressionado com a forma elegante e natural com a qual Taís abraçara o jornalismo. Seu pensamento de profissional estava ali, com ela, interessado em tudo que dizia. Já seu coração de menino...
Esse batia acelerado. Fugindo desesperado numa correria louca. Tentando escapar do que aqueles olhos azuis, aqueles cílios longos, aquela boca perfeita faziam com ele. Joaquim segurava o cabelo para que a mão não fugisse ao controle. E sorria. Até porque não conseguiria fazer outra coisa. Taís estava na sua frente. A pessoa que não lhe saiu da mente por nem um dia sequer. A mulher que ele via refletida na lua.
Não conseguia conter o desespero que a esperança lhe causava. Taís o procurara. Ela buscara a sua presença. Talvez sua chance de ser o alvo chegara. Esse pensamento lhe dava tremores e fazia seu coração disparar. Estava sem ar. Sentia calafrios. E ela perguntava sobre trabalho, sobre cinema, sobre futebol e carreira. Os olhos de caçadora sempre dentro dos dele.
Estava tímido. Incapaz. Respondia quase que mecanicamente. Perguntas tantas vezes feitas. Não era difícil buscar na memória a resposta padrão. Joaquim era a presa. Sempre fora. Estava acuado pela presença dela.
Taís aproveitara cada segundo do tempo. Profissional ao extremo. Sorrindo. Perguntando. E, ao mesmo tempo, reagindo aos sinais que o corpo dele dava. Jota sabia que não eram sinais bons. Ele estava com medo. E ela farejava o medo em cada hesitação. Quando alguém da produção gritou “two minutes”, quis morrer. Era pouco tempo para convencê-la a ficar.
Taís sorriu mais uma vez. Ela parecia tranquila, prática e inabalável como sempre. A deusa Ártemis dos seus inúmeros desenhos. A personagem que marcou a sua vida. Ela respirou fundo e fez sua última pergunta:
─ Joaquim, sou uma grande fã dos seus quadrinhos e essa é mais uma pergunta pessoal do que jornalística... – De repente, era essa a pergunta que mais o interessava responder. Ele sentou de forma mais atenta na cadeira. – Seus quadrinhos notadamente colocam as mulheres em primeiro plano e pouco tratam de relacionamentos amorosos. Eu acho isso incrível.
─ Acha? – Ele sorriu. – Nem todos os fãs pensam da mesma forma. Se quer mesmo saber...
─ Mas, por outro lado, sempre imaginei que existisse algo mais entre Levi e Diana. E, no entanto, depois que ela sai do ensino médio, eles simplesmente não se encontram mais. É só isso? – Ele se divertiu com a expressão do rosto dela. Era uma pergunta de fã. Estava orgulhoso de tê-la como admiradora. – Eles são perfeitos um para o outro e não percebem. Nunca vai acontecer? Ou será que o próximo longa será sobre um reencontro? Você pode me adiantar esse detalhe? – Colocou as mãos juntas como se estivesse em oração. – Por favor...
─ Eu adoraria te falar como essa história termina, Tati. – Criou coragem para tomar uma das suas mãos e entrelaçar seus dedos nos dela. Apertou forte. Naquele aperto, queria passar um milhão de sensações. – Mas nem eu sei essa resposta. – Encarou aqueles olhos azuis com coragem. Desejando que eles se perdessem na escuridão dos seus. Que entendessem o que estava bem ali, estampado em cada contração dos seus músculos. – Estou esperando que esses dois me digam o que vai acontecer faz bastante tempo. E a verdade é que está tudo nas mãos dela, porque ele é idiota e covarde demais para tentar...
Taís soltou a mão dele e se afastou. Algo no seu olhar de admiração quebrou. Não era mais a jornalista. Não era mais a fã. Era ela mesma. Um vislumbre da adolescente determinada faiscou pelo seu semblante. Jota teve medo de que ela saísse sem sequer se despedir. Ainda sabia reconhecer que estava zangada.
─ Levi inventa mil desculpas para não se declarar para Diana. Deve estar dando aula em uma universidade, olhando para lua e pensando nela. Jamais vai esquecê-la. – Continuou a falar. A coragem vinha de um lugar que ele mesmo não sabia de onde. – A verdade é que não se sente capaz de merecer alguém como ela. Nunca achou.
Ele esperava tudo, menos que ela se levantasse friamente, agradecesse a entrevista com um aperto de mão formal e mais nada. Tomou a direção da porta indicada pela produção. Taís nem olhou para trás. A ponta do salto dela marcava as pontadas de dor no coração de Joaquim. Ela desprezara a caça.
Jota se levantou. Não podia deixar que ela fosse. Que saísse de sua vida. Não novamente. Aí alguém lhe perguntou se queria alguma coisa. Se precisava parar e fazer um lanche. Despertou para a realidade. Tornou a sentar. Colocou a cabeça entre as mãos. Tonto. Covarde. Nunca fora um garoto covarde.
Mas agora deixava que ela fosse embora, porque não tinha coragem para ouvir mais um não. Não tinha mais estômago para que ela destruísse suas esperanças. Ia viver para sempre preso nessa ilusão de que um dia o quisesse. Estava inerte na sua frente. A presa perfeita. E a deusa o desprezara. Mais uma vez.
Os minutos foram passando e Joaquim se deu conta de que não conseguiria continuar o que estava fazendo. Não podia mais ficar sequer um segundo ali. Não tinha condições de responder nada. Pelo contrário, precisava era ouvir respostas. Nem deu muitas explicações, pegou sua carteira e desceu pelas escadas.
Ligou para Lorena como se a amiga pudesse resolver tudo em um passe de mágica. Como se ela tivesse todas as respostas. Ou, pelo menos, o número certo do telefone que ele precisava. Caminhava pelas ruas sem rumo. A cidade não era a mesma de tantos anos antes. Estava, sem sombra de dúvidas, perdido.
─ “A morte é para os que morrem”, Joaquim. – A voz dela o chamou de volta à realidade e ele se despediu da amiga imediatamente.
Taís estava em pé, do lado de uma barraquinha de cachorro-quente, com um sanduíche na mão. Tirara a camisa do uniforme e usava uma blusa num tom forte de rosa com as costas completamente nuas. Era tão linda e, ao mesmo tempo, uma imagem tão insólita com aquele cachorro–quente nas mãos, que arrancava olhares de admiração de quem passava na calçada e a percebia.
─ Não sou uma deusa. – Brigou com ele. – Nunca serei. – Deu uma mordida no sanduíche fazendo a mostarda espirrar no seu rosto. – Sou uma mulher normal e cheia de defeitos. Aprendi a lidar com isso a duras penas. – Explicou sem se incomodar de limpar o que estava sujo. – E não vou abrir mão de uma conquista dessas nem por sua causa...
─ Nem por minha causa? – Estava tão feliz que podia ficar ali o dia inteiro. Para ele, Taís e o cachorro-quente eram mais bonitos que a mais linda obra do Louvre. Sentou em uma banquetinha. Tati sentou de frente para ele. Ainda zangada.
─ Você tem essa capacidade de arrancar das minhas entranhas o melhor de mim. – Disse sem tirar os olhos dos dele. Certeira como uma flecha. – Adoro a pessoa que vejo refletida nos seus olhos e adoraria descobrir mais sobre ela e sobre nós dois. – O coração de Jota deu um salto com a expressão “nós dois”. – Mas já estou velha para mais uma furada, Jota.  – Balançou a cabeça com naturalidade. Deu outra mordida no sanduíche. – Quero parceria. Quero de igual para igual. Ou então não me interessa... – Taís o encarava com uma verdade que doía na alma. A sinceridade em estado pleno.
Jota a encarou enquanto ela mastigava a mordida. Esperou que ela tomasse um gole do refresco sem-vergonha que acompanhava o lanche. Pensava na perfeição de cada traço daquele rosto. A arte era impressionante, a arte o mantivera vivo, ele era feito de arte. Mas a realidade sabia ser bem mais surpreendente. Amava a Taís real ainda mais do que a que conseguira criar na sua cabeça.
─ Eu estava para ter um troço antes de te ver. – Ela confessou. – Te admiro do fio de cabelo desarrumado ao dedão do pé dentro desse tênis imundo, sabia? – As palavras jorravam dela impulsionadas pela raiva. – Queria poder dizer o quanto você significa para mim, o quanto me ajudou sem nem saber, falar o quanto estudei para fazer essa entrevista para que você não achasse que eu ainda sou aquela menina burra do ensino médio, queria agradecer por cada livro da sua lista maravilhosa que eu li, por cada palavra de incentivo escondida nos seus quadrinhos. Tanta coisa que nem sei... – Estava realmente zangada. Jota escutava com atenção encostado com os braços em uma mesa de plástico. – E você me vem com a deusa de novo. Com esses olhos que só enxergam o melhor em mim. Como se você não pudesse com os meus sentimentos... Como se eu fosse demais. Você sabe como eu me sinto, Jota? – Mordeu os lábios. Ele não fazia ideia. – Como se nada que eu tivesse feito e aprendido nesses anos todos fosse suficiente. – Despejou em cima dele. – Eu nunca serei essa pessoa que você enxerga. Nunca conseguirei alcançá-la. Ela é inatingível. – Taís o encarava nervosa. – E você prefere venerar essa deusa a ter coragem para me enfrentar de verdade. E isso me deixa puta pra caralho! – Jota riu. Ela se zangou mais ainda. – Tanto. Mais tanto. Que eu tenho vontade de esfregar esse cachorro-quente na sua cara.
─ Eu amo você, Taís. – Não precisava mais de coragem para dizer isso. – Amo de uma forma inconsciente, sem-razão, fora da lógica. Você se misturou em mim de um jeito que nunca consegui explicar. Entrou no meu peito e não saiu mais. – Olhava nos olhos dela. – Eu tenho muito medo do que sinto. Acho que sou capaz de deixar de ser meu tão idolatrado eu para ser quem você quer que eu seja... Isso me assusta.
─ Por outro lado, não faço questão desse sentimento se for para ser a única protagonista dessa história. – Pagou o lanche e se levantou. Joaquim viu a flecha incrível tatuada nas costas dela, no sentido da espinha. – Quero mais é que o Levi se foda se ele está por aí sentado numa banquinha de cachorro-quente esperando a Diana tomar a decisão de voltar e se tornar o grande amor da vida dele... – Taís começou a andar. – Para mim, Jota, quem não escolhe viver, já está morto.
─ Garanto que Levi está disposto a pegar um avião agora mesmo e se jogar aos pés dela quantas vezes for necessário até que Diana o aceite. – Segurou o braço dela.
─ Joelhos são totalmente dispensáveis. – Ela o encarou e os olhos deles se entenderam pela primeira vez. – Basta um beijo. Inesquecível como aquele que trocaram na despedida dele do ensino médio.
Joaquim deslizou as mãos pela cintura dela e as colocou dentro dos bolsos de trás das calças de Taís. Tati o enlaçou pelo pescoço. Queria beijá-lo, mas fez questão que ele tomasse a iniciativa. Jota a abraçou por completo, milhares de emoções explodindo em cada toque e quando as bocas finalmente se encontraram, ambos já sabiam que aquilo ali era amor. De verdade. E para sempre.


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