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terça-feira, 19 de fevereiro de 2013

RELICÁRIO




Na primeira vez que Edgar pôs os olhos em cima de Heloísa nada aconteceu. Exatamente isso: nada. Ninguém respirou. Ninguém piscou. A gravidade esqueceu o que era massa vezes aceleração e até o spin dos átomos deu um tempinho na rotação. O mundo. Ou, pelo menos, o mundo de Edgar deixou de funcionar por dez segundos.
Nesses dez segundos, como alguém que está à beira da morte, ele viu sua vida passar junto daquela moça de cabelo curtinho. Não o passado. O futuro que ele queria construir com ela. O casamento. A casa. A família. Do primeiro beijo às Bodas de Ouro. E ele soube que nada valeria mais do que conquistá-la. Difícil seria conquistá-la.
Edgar era um estudante de Medicina que veio de uma escola pública. Sua conquista foi tão grande que saiu até no jornal. Ele estudou dia e noite, revisando os conteúdos pela madrugada. Passava os domingos estudando Física e Matemática, as matérias que tinha mais dificuldade. Estudava nem que fosse trancado no banheiro para fugir da gritaria.
Não que sua família fosse paupérrima ou desequilibrada. Simplesmente, com três irmãos além dele para criar com salários de costureiros, os pais não tinham condição de arcar com esse tipo de despesa. E, desde cedo, Edgar tomou consciência que seus sonhos deveriam ser do tamanho do seu esforço.
Heloísa era o oposto. Era amiga de infância de Adriano. Adriano, seu melhor amigo da faculdade de Medicina, pertencia a uma das famílias mais ricas da cidade. Seu pai, Demóstenes Leal, era um advogado de sucesso. A casa de Adriano deixava Edgar tonto. Não imaginava que pessoas pudessem ter tantas regalias. Até mordomo eles tinham. Colecionavam carros. Carros. Sua família não tinha um carro ainda, mas eles tinham pelo menos dois para cada membro.
Enquanto Edgar assustava-se com tudo naquela propriedade, Heloísa parecia muito à vontade. Ela e a mãe de Adriano conversavam com cumplicidade tomando chá com biscoitos. Edgar achava que aquilo só acontecia em filmes, mas a cena se repetia bem diante do seu nariz. A moça falava baixo e dava mordidinhas minúsculas nos biscoitos amanteigados.
Ele reparou nos dedos finos e delicados de unhas bem cuidadas, tão diferentes das suas mãos de pele grossa de tanto ajudar na lida da casa. Reparou no corte do cabelo na altura das orelhas. Era um corte tão bem feito que ele imaginava que cada fio ficaria no lugar mesmo no meio de um vendaval. E reparou na sandália. Aquela sandália que ela usava, com pedrinhas brilhantes, era de uma grife exclusiva. Aquela sandália deveria ter custado mais que o ordenado de sua mãe. Lembrou-se que os sonhos deveriam ser do tamanho do esforço. Aquele sonho de menina não cabia na força dos seus braços de menino batalhador.
Subiu as escadas sem vontade, com a cabeça baixa e o mundo nos ombros. Adriano, que o acompanhara até a cozinha para um lanche, estranhou a demora. Ainda tinham muito para estudar, Edgar não dispensava estudo. Era o melhor aluno de sua turma. Voltando pelo mesmo caminho. Entendeu na hora o que havia acontecido e com um sorriso no rosto insistiu em apresentar o amigo para Heloísa. Edgar preferia morrer a enfrentar o olhar bem maquiado daquela menina linda com sua calça jeans sem marca, mas Adriano simplesmente o puxava escada abaixo. Logo estava de frente para ela.
Edgar parecia ser feito da mesma manteiga dos biscoitos na mesinha de chá, pois sentia que derretia diante do sorriso contido de Heloísa. Ela não precisou fazer nenhuma cara feia, ou torcer o nariz, ou desprezá-lo com o olhar. Estar diante um do outro foi o suficiente para que ele entendesse seu lugar. Heloísa pertencia a outro mundo, um mundo paralelo ao seu. Um mundo que, provavelmente, ele passaria a vida inteira tentando integrar sem sucesso. E, mesmo assim, não conseguiria ser uma daquelas pessoas. Não conseguiria ser como Adriano na sua gentileza natural de gestos.
Voltaram para o quarto, mas Edgar não era mais o mesmo. Perdia-se fácil em pensamentos e quando Adriano fez uma pergunta estúpida de anatomia e ele não soube responder, ambos compreenderam que a tarde de estudo estava perdida. Edgar desabafou suas angústias. Tinha tanto orgulho da sua família simples, porém, nunca se sentira tão insignificante quanto olhando para os pés daquela menina. A sandália de grife parecia esmagá-lo.
Foi então que Adriano mostrou pela primeira vez a pessoa que era. Naquela tarde, deixaram de ser colegas de faculdade e tornaram-se amigos, irmãos. Adriano disse com todas as palavras o quanto Edgar estava perdendo tempo julgando as pessoas pelo que elas usam, pelo que elas têm. Afirmou que Heloísa, debaixo da roupa de grife, era uma das garotas mais bacanas que ele já conhecera, que tinha uma alma simples e que se ele, Edgar, não tinha forças para lutar por ela, era porque não a merecia. Mas que não achava nada justo ficar arranjando desculpas por conta de dinheiro.
Adriano contou também que o pai nascera filho de mecânicos. E que tudo que ele conquistou foi com muito esforço e muito estudo. Naquela casa, o esforço valia muito mais do que a aparência. A mãe de Adriano, agora sentada na sala tomando chá, em outros tempos, lavou roupa para fora. Realmente, ela não tinha os dedos delicados de Heloísa. E, de fato, Edgar foi muito bem recebido na casa dos Leal ao contrário do que esperava. Doutor Demóstenes fazia muito gosto daquela amizade. Agora ele era capaz de entender, o pai do amigo reconhecia nele os seus próprios méritos.
Foi muito por causa dessa conversa que, na manhã seguinte, quando Adriano o convidou para ir jogar futebol na praia, ele aceitou. Mesmo sabendo que Heloísa e sua melhor amiga Alice também iriam. A praia era um lugar democrático. Jogando futebol de bermuda na areia, não dava para saber quem era de família rica e quem era da ralé.
Estava decidido. Não ia desistir do futuro que sonhara. Já chegara até ali. Os sonhos são do tamanho do seu esforço. Ele estava disposto a se esforçar. Fez uma promessa a si mesmo, se conseguisse, se aquela menina linda fosse sua, tudo, absolutamente tudo, seria razão para celebrar. E a festa começou pelos olhos, celebrou consigo cada curva que o biquíni de Heloísa deixou a mostra. Perdeu um lance de gol, mas não estava nem aí. Seu futuro esticava-se na areia, um futuro lindo em todos os seus detalhes, em breve, seria um futuro banhado de sol. Adriano deu um tapa na sua nuca o fazendo voltar para o presente.
Voltou para o jogo. Não era muito bom, mas, boa parte daqueles caras, jamais tinha jogado no meio da rua, então, ele levava vantagem na malandragem. Divertiu-se. Sua equipe ganhou. Depois, um banho no chuveiro da barraca e, finalmente, conversar com as meninas. Ele puxou assunto. Podia ser o cara pobre, não precisava ser o cara tímido e chato.
─ E aí, Heloísa, você faz faculdade?
Ela demorou a responder. Edgar não tinha notado, mas ela estava com um pedaço enorme de sanduíche natural na boca. Um pedaço nada parecido com as mordidinhas delicadas no biscoito amanteigado. Quando perguntou, ela quase se engasga. Ficou abanando as mãos na cara, tentando mastigar depressa. Ele achou muita graça daquilo. Alice ofereceu um gole de refrigerante com um olhar de censura, pelo jeito, Heloísa fazia isso sempre. A outra moça voltou a ler como se nem pertencesse ao mesmo mundo que eles.
─ Eu estudo Física na Federal... – Sua voz saiu fina quando finalmente disse.
─ Física? Tipo: Mecânica, Termodinâmica, Eletricidade... – A surpresa foi tão grande que ele nem conseguiu controlar o tom de voz.
─ Essa mesma. – Pelo jeito que ela respondeu, não gostou nem um pouquinho do tom dele.
─ Desculpa. – Abaixou o rosto com vergonha. – Sempre te fazem essa pergunta, não é? – Ela fez que sim com a cabeça e uma careta azeda. – Devem perguntar também se você faz Educação Física, não é? – Ela continuou confirmando com a cabeça. – Foi mal. Sabe o que é? – A coragem vinha não se sabe de onde. – É que com esse corpo lindo desse jeito é natural a gente pensar que você faz Educação Física.
Heloísa ficou vermelha na mesma hora. Adriano, que estava do outro lado da cena fingindo contemplar o mar, olhou para ele surpreso com a coragem. E até Alice levantou os olhos da leitura. Edgar não se intimidou. Continuou a falar.
─ Nossa! Com todo respeito, Heloísa, nunca conheci uma garota tão bonita que fizesse Física. Caraca! Você deve ser muito inteligente também. – Ela não respondeu, ainda estava chocada. – Essa combinação é muito perigosa, sabia? Desse jeito eu me apaixono.
─ Ela foi convidada a cursar algumas disciplinas do mestrado ainda na graduação. – Alice respondeu sem deixar de ler. – Isso não é uma mulher, meu filho, isso é Newton travestido.
Todos riram e a conversa engrenou. Os quatro falavam, o tempo passava depressa, mas Edgar deixou bem claro que estava a fim de Heloísa. Tanto que perguntou se podia levá-la para casa e ela aceitou. Adriano e Alice foram de carro e os dois pegaram um ônibus. Ele pagou as passagens, ela comprou dois picolés desses de praia com gosto de sal por ser feito com água de torneira. Edgar estava fascinado, apesar da pose de patricinha, Heloísa era muito simples. Cantava todas as músicas da trilha sonora da viagem de ônibus.
─ Olha, para uma moça educada de sociedade, você até que é pé no chão... – Ele sorria enquanto ela se sacudia no balanço de um funk. Vagaram dois lugares, eles sentaram juntos.
─ Ah! Eu sou do povo, menino! – Sorriu e encostou a cabeça no ombro dele. Edgar estremeceu. Concluía que aquilo ali era se apaixonar, pois nunca sentirá nada parecido antes. – Esse negócio de sociedade é um saco às vezes. – Ela desabafou. – Adoro o Artur e o Adriano, sabe? Mas a mãe deles... – Fez um gesto colocando o dedo na garganta mostrando o quanto a mulher a desagradava. – Pense numa mulher chata. Preocupada com a vida dos outros e com as regras da sociedade. – Balançava a cabeça chateada. – Não posso nem falar nada, minha mãe é do mesmo jeito. – Edgar não conseguia parar de olhar para ela. Que criatura espetacular. Linda. Inteligente. Ele precisava passar o resto da vida do lado dela. – Eu não sou assim, não, sabe, Edgar? Eu não acho que as pessoas são aquilo que elas têm. O universo é tão maior que isso. Tão maior.
─ Heloísa, sem querer te interromper, mas eu não estou mais aguentando... Posso te dar um beijo?
─ Eu pensei que você não fosse mais pedir.
Foi o primeiro beijo deles. O primeiro de muitos. Não como Edgar tinha imaginado. Muito. Muito melhor.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Trecho do capítulo I de Prá você guardei o amor




Felipe e Guilherme estavam curtindo a popularidade, esbanjando sorrisos com canto da boca para as garotas que passavam os devorando com os olhos. Depois da visualização geral, cada um fixou o olhar em algo que lhe chamava atenção.
Primeiro, Guilherme mostrou os dois mestres da escola: Vinícios e André. Eles estavam se formando, mas nos anos que passaram no Santa Inês, foram senhores da pegação. Guilherme, apesar de ter sofrido maus bocados com Vinícios, admirava-os profundamente. E mais, estava muito feliz porque aquela era a última festa dos dois. Por isso, aplaudiu bastante quando Vini, como era conhecido, subiu ao palco para receber o prêmio de melhor atleta do ano.
Dona Cecília continuou a premiação dos alunos. Felipe não tomava parte dos aplausos, tinha certa antipatia por esse tal de Vini. Sua irmã, Rosana, fora uma das idiotas que se apaixonaram por ele. Mais uma de suas conquistas descartáveis. Achava ótimo que estivesse mesmo saindo do colégio. Os olhos de Felipe procuravam uma coisa bem melhor de ver, logo focaram na figura mais interessante da festa toda: o nome dela era Milena.
Milena tinha quinze anos e o mundo aos seus pés. Mile era patricinha da pior espécie. Só usava roupa de grife, só falava com gente interessante e tinha até um motorista particular. Linda demais! Aparentemente, o mundo parava para vê-la passar. Aquela menina mexia com Felipe de um jeito esquisito. Ele não cansava de olhar para aquele cabelo bem cuidado, que deveria ser macio e cheiroso, queria tocar naquele cabelo claro. Além disso, ela tinha um olhar que o destruía por dentro, mesmo com cinco medalhas no peito, o olhar de Milena o fazia se sentir um lixo. Muitas vezes se perguntou, enquanto pensava nela nas noites de solidão, o motivo daquilo. Poderia ficar com qualquer uma, mas queria Milena, que o desprezava.
Chegou a tentar uma aproximação. Tudo inútil. Deixava bem claro que ele não merecia nem pisar o mesmo chão que ela. Foram alguns foras sensacionais. Inesquecíveis. Ele e a sua reputação gostariam muito de dizer que estavam em outra agora, mas seu olhar continuava procurando por Milena no intervalo, na saída da escola ou na pista de dança como fazia naquele instante.
Claro que ela percebia. Claro que ela provocava. Gostava de ter Felipe nas mãos, brinquedinho para fazer inveja às colegas. Sorria com dentes perfeitos olhando para ele, dava beijinhos apertados no rosto dos seus colegas de sala. Matava Felipe de ciúmes. Mas se ele se aproximasse de alguma forma, já tinha na ponta da língua o próximo fora fenomenal.
─ Ainda tá nessa, cara? – Disse Guilherme depois de acompanhar o olhar do amigo até Milena. – Desencana, rapaz. Essa menina adora te maltratar.
─ He! Eu sei. Mas eu devo mesmo gostar de um desafio... – Continuou olhando para Milena que retribuía o olhar. A provocação era o ingrediente que os unia.
─ Cheio de gatinha aqui louca pelo campeão do colégio Santa Inês e você perdendo tempo com essa patricinha malvada. Não me conformo. – Guilherme balançava a cabeça em desacordo.
─ Mas eu te garanto, cara, ou eu pego de vez essa menina ou eu supero.
─ Senti firmeza! – Cumprimentou Felipe com um aperto de mão. – Mas nem tanto... – Guilherme piscou um olho desconfiando do colega. – Quer saber, vou te dar uma ajudinha...
─ Ajudinha? Que ajudinha? – Dessa vez quem desconfiou foi Felipe.
─ Vou fazer você largar dessa menina. Aposto com você que eu fico com ela.
─ Nem pensar, fura-olho!
─ Fico sim. – Divertiu-se Guilherme com a chateação evidente do amigo. – Quem sabe assim você larga o osso. Garanto que não vai ser sacrifício nenhum. – Guiga deu uma secada em Milena dos pés a cabeça. – A danada é bonita demais!
─ Qual é, Guilherme? Nada a ver isso aí.
─ Tá com medo?
Guilherme atiçou o espírito competitivo de Felipe com aquela provocação. Para o loiro era somente curtição, mas Felipe não foi capaz naquele momento de admitir que sentisse algo real por Milena. E, além disso, não gostava de perder. Concordou com o amigo e sua aposta idiota, agora disputavam Milena como quem disputa um pódio.
─ Beleza. Mas vamos definir os termos dessa aposta. Ganho o que se eu ficar com a Milena primeiro? – Brincou Guiga.
─ Sei lá, cara. Quer um beijo meu? – Disse sem o mesmo bom-humor.
─ Cai fora, marmanjo!
─ Quem sabe um autógrafo para vender na internet quando eu for medalhista olímpico?
─ Boçal, heim? Vai engolir muita água da minha raia antes disso acontecer... – Guilherme sabia que Felipe nadava melhor que ele, mas não gostava quando o amigo se exibia. – Mas já que é assim, quero uma tatuagem.
─ Pago a tatuagem pra você, então. – Disse Felipe sem nem hesitar.
─ Não, a tatuagem é em você. Quero que você tatue a bandeira do Brasil.
─ De jeito nenhum. Isso pode complicar minha vida. – Reclamou.
─ Calma, cara. Antes de começar a espernear como uma garotinha, escolhe o seu prêmio para a aposta...
Felipe pensou, para valer uma tatuagem permanente da bandeira do Brasil, o castigo de Guilherme deveria ser inesquecível. Deu uma volta em torno do salão com o olhar, encontrou o que queria.
─ Beleza! Eu tatuo a bandeira do Brasil, se você namorar a Beta Cintura de Kombi até o fim do ano.
─ Trato feito. – Guilherme estendeu a mão para o amigo. – Tinha a mais absoluta certeza de que venceria a aposta. Milena, com todo o seu jeitinho de enjoada, já tinha dado indícios de que queria ficar com ele.
Felipe cumprimentou o amigo com o aperto de mão fechando o acordo. Nesse mesmo instante, a luz de um refletor focou Guilherme. Dona Cecília tinha acabado de anunciá-lo como rei do baile. A rainha eleita foi Milena.
Com uma imensa satisfação, Guiga trocou um olhar cheio de significados com o amigo. O destino conspirava, teria Milena em seus braços e poderia esfregá-la na cara de Felipe, tendo a plena certeza que ele ia se morder de ciúmes sem poder fazer absolutamente nada. Se desse sorte, naquela mesma noite, venceria a aposta.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Como estamos...




Hoje está chovendo. Isso é uma raridade no Ceará. Existe até certa comoção no facebook por conta da chuva. Poderia fazer o post inteiro sobre isso, mas não. Vou aproveitar o clima gostoso para falar como está meu processo de escrita.
Ontem, estava escrevendo o sexto capítulo do meu terceiro romance. Como vocês sabem, ainda não publiquei nenhum. Continuo na batalha. A divulgação está caminhando, afinal, o blog tem um mês e quase duzentos acessos. Estou feliz com isso. :)
Voltando ao livro, bem, pretendo que ele se chame All Star. Mais uma música do Nando Reis. Todos os três têm nomes de músicas do Nando. Não porque eu seja alucinada pelo artista, gosto dele é óbvio, mas porque acho que o amor descrito nessas canções é um sentimento verdadeiro, real. Elas não falam de princesas e príncipes, falam de gente comum, de amor comum e de como isso é especial mesmo assim. Enfim, as músicas do Nando são minhas inspirações. Gosto de acreditar que somos visitados pelas mesmas musas.
Meu primeiro romance eu chamei de Do seu lado. A primeira vez que o escrevi, eu tinha dezessete anos, mais ele se perdeu junto com um computador. Infelizmente, acontece. Fiquei muito chateada. Anos se passaram e aquela estória não me saía da cabeça. O Vinícios, meu personagem favorito, não me deixava em paz. Eu cresci, fiz faculdade, pós-graduação e ele continuava ali. Aí decidi escrever de novo. E foi bom demais rever todo mundo. Relembrei de cada personagem, apresentei-me a outros. A estória é diferente em vários pontos da original, embora os personagens tenham se mantido quase os mesmos.
Do seu lado trata de certezas. Eu imaginei um adolescente que soubesse exatamente aquilo que queria e que não temesse lutar por isso. Eu escrevi esse cara assim. Acho Vinícios apaixonante. Quem já leu, às vezes, consegue amá-lo até mais do que eu. Meu amor é de mãe, sabe. Mas eu entendo a mulherada, também o considero sedutor com todo aquele carinho, aquele cuidado, aquela dedicação.
         Já a Malu é um extremo oposto. Só dúvidas. Só medo. Ainda não sou sua grande fã. Na minha cabeça, ela ainda precisa provar a que veio. Fazer alguma coisa para merecer aquilo que a vida lhe deu de mão beijada. E isso diz muito sobre o futuro.
         Meu segundo romance eu terminei no comecinho de janeiro. Ainda nem mandei para a Biblioteca Nacional e ainda não foi lido inteiramente por ninguém (embora uma amiga já esteja com uma versão dele no seu computador). Ele se chama Pra você guardei o amor.
         Eu tinha decidido mudar de foco, escrever sobre outros adolescentes, mas foi me dando uma saudade terrível desse pessoal. Principalmente quando minhas amigas, que começaram a ler Do seu lado, comentavam sobre eles. Fiquei até com ciuminho, pois é engraçado quando alguém comenta sobre o seu livro com você, o que eles acharam daquela cena, o que eles entenderam dos personagens. Parece que os personagens estão contando segredos para eles que não contaram para mim. Mesmo nossa amizade sendo ainda mais antiga. É bem esquizofrênico se quer saber.
Em Prá você guardei o amor, vamos entrar num sentimento diferente. Não se trata de um amor de infância. Os dois protagonistas vão ter de descobrir o que é esse negócio que eles sentem um pelo outro. E a tarefa não é fácil. Eles dois são insuportáveis. Achei extremamente bacana ver o quanto Milena e Felipe vão crescendo ao longo da narrativa. O quanto vão abrindo mão das máscaras que carregam. Como acabam mostrando que são tão mais do que aparentam ser, apesar dos seus defeitos.
Sei que a empatia com Vini vai ser sempre maior, mas eu os amo da mesma forma. Como se fossem filhos.
Nesse livro, fiz questão de mostrar um pouco mais do André. Mostrar porque tanta lealdade a um cara que não parece merecê-la. Gente, eu garanto, o André é o máximo. Ele também usa máscaras. Quando elas caírem, você vai se apaixonar por ele tanto quanto eu estou apaixonada.
Você vai conhecer também a Mariana. Ela é tão legal que tive de cortar suas asinhas ou ela tomaria o livro inteiro. É uma ruivinha espaçosa essa menina. Tem muito da minha irmã nela. E acho que é por isso que gosto tanto, tanto, tanto da Mari. Mariana cresce cada vez mais. Acho que é a minha atual melhor amiga. Posso ver a cara dela em todas as cenas que estamos criando, criando juntas.
Mariana é a protagonista de All Star, o terceiro livro que estou escrevendo. Estou de fato postergando o quanto posso essa estória. Nela, você vai ver as pontas soltas que andei deixando nos livros se unindo. Tomara que gostem dos destinos dos personagens. Eu já tenho ideia do que vai acontecer, só não sei ainda como isso vai acontecer.
Afinal, personagens são criaturinhas temperamentais. Tem vida própria. Uma amiga, por exemplo, ficou meio tímida de discutir o livro comigo. Achou ridículo discutir o que ela achava que os personagens pensavam com a autora. Na cabeça dela, eu sabia exatamente o que eles deveriam estar pensando. Ledo engano. Sou tão espectadora quanto ela. Somente ouvi a estória primeiro, mas estou louca para discutir sobre eles. Saber se contam os mesmos segredos para mim e para vocês.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

O Filho de Netuno


Percy Jackson, que saudade que eu tava docê, menino! (Se você é um maníaco que não suporta um spoiler: pare aqui!)
Para mim, este foi um dos melhores livros do Rick Riordan, bastante Percy e nenhuma Annabeth. Não tenho   mais 13 anos para me apaixonar por personagens de livro, então, não estamos falando de ciúmes. Só não gosto da Annabeth. Já o Percy é uma gracinha, gente. O cara lembra de ligar para a mãe no meio de uma batalha. Está decretado: Pecy Jackson é um fofo!
Sem querer comparar, mas já comparando, Percy fez valer a pena cada chilique adolescente do Harry Potter. Lembro-me de ler e pensar enquanto lia o quinto livro: que garoto mala esse Harry. Não me leve a mal, acho que JK Rowling é uma escritora quase perfeita (eu a achava perfeita até o livro sete), mas o Harry adolescente é um mala sem alça e sem rodinha. Ele não abaixa a cabeça nunca, não escuta um conselho e não pede desculpas. Mesmo colocando seus amigos em apuros. É um orgulhoso. O Percy não, eventualmente ele até engole um sapo. Sabe que, lutando contra mais fortes, é melhor medir as possibilidades antes de falar besteira. E sempre pede desculpas. Fofo. Fofo. Fofo.
Nesse livro, nós vamos junto com o Percy sem memória para o acampamento Romano. Adorei tudo lá. Tudo. Pensei que Rick Riordan não fosse mais me surpreender com esse lance de divindades, mas surpreendeu. As diferenças entre Grécia e Roma são fantásticas. E dá para ver o historiador Rick Riordan lá, pois ele não elegeu uma cultura para ser melhor que a outra. Apenas apontou as diferenças. E, de fato, não existe isso de cultura melhor do que a outra.
Meu destaque no acampamento romano fica com Octavian, filho de Apolo, que faz previsões lendo entranhas de bichos de pelúcia. No mínimo, inusitado. Octavian é um vilãozinho. Não sei se será um traidor, espero mesmo que não. Mas ele é convincente usando a oratória. E acho importante colocar personagens que resolvam problemas usando palavras. Apenas o poder das palavras.
Passemos para os dois companheiros de aventura de Percy: Hazel e Frank. Primeiro, Hazel Levesque, filha de Plutão, para quem não conhece, esse é outro nome para Hades. Uma coitada, gente. Ô moça para sofrer! Negra de Nova Orleans, em plena década de quarenta, com uma mãezinha xexelenta e um poder de encontrar pelo chão metais e pedras preciosas amaldiçoadas, ela tem uma vida de cão. Pelo menos, foi curta. Mas quando o Mundo Inferior vira uma bodega por conta no sumiço de Tânatos, ela tem uma segunda chance. Para mim, não cheirou, nem fedeu. Dá para aguentar, contanto que ela morra alguma hora.
Já o Frank à Moda da Casa Zhang eu achei um pouquinho demais. Ele é tranquilo e inseguro, tudo bem, e tem um super ponto fraco, mas a família dele parece aquela pizza à moda de pizzaria vagabunda que vem com absolutamente todos os ingredientes que tenham no local. Ele é chinês, grego, romano, filho de Marte, descendente de Netuno, parente de um argonauta e canadense. Só? Não. Ele é metamorfo também. Foi demais para mim. Tomara que ele seja a reencarnação do Sammy da Hazel e morra junto com ela em algum momento. Felizes para sempre nos Elísios.
A única coisa que gostei sobre Frank, foi o fato de ele ser filho de Marte e não ser meramente um caceteiro. Também adoro a Clarisse La Rue, filha de Ares. Bem, eu mesma sou de Áries e, provavelmente, se fosse semideusa, seria dessa casa. Então, foi bom ver Marte/Ares numa forma menos agressiva e mais inteligente.
Continuemos a discutir sobre o livro e sobre a série: sei que para enfrentar os desafios que Riordan preparou é preciso semideuses fortes. Na minha opinião, a ponta fraca dos heróis até agora apresentados, entre gregos e romanos, é a Annabeth, com certeza. Percy e Jason são fodões, Leo, Piper, Hazel e Frank também não deixam a desejar, prefiro acreditar que o sétimo é Nico. O garoto é meio emo, mas é tão poderoso quanto Jason e Percy. Já Annabeth, bem, é melhor ela entrar para o mundo da decoração de interiores.
Já estou esperando o próximo.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Apaixonada por palavras


Este foi o último livro lido no feriadão...
Para começo de conversa, a capa é linda. De excelente gosto, afinal, acho que é isso mesmo, quando gostamos de palavras, precisamos devorá-las como fazemos com M&Ms.
Além disso, a escrita de Paula Pimenta me encantou. Fiquei com vontade de ler os outros livros dela. Suas palavras são tocantes e vão de uma doçura de mulher a uma elegância de menina sem titubear.
Porém, eu, particularmente, não gostei muito do livro. Nada de mais! Apenas um desencontro de gêneros. Eu queria um livro de crônicas que falassem de amor, mas acabei quase invadindo a intimidade da autora. Caí de paraquedas na sua estória com sua cachorra e nas conquistas do namorado.
Não sabia que o livro era uma coletânea de crônicas de um blog. Dessa forma, aos poucos, vamos desvendando a pessoa por detrás das palavras, por detrás dos livros. Suas meninices, seus amores, suas vontades... Como fazemos nos blogs.
Eu adoraria ter lido o que li no livro num blog. Juro. Porém, como eu não sabia e já tinha uma expectativa, acabei sentindo falta da Paula Pimenta ficcional. Foi só isso.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

O Herói Perdido


Sempre que eu leio algo de Rick Riordan, eu me divirto. A Mitologia Grega é um dos meus assuntos favoritos de todos os tempos e a releitura de Riordan é leve e moderna. Apesar de adorar os clássicos, gosto da mistura. Jamais me esquecerei da medusa sendo perseguida pelo seu reflexo no celular de Percy Jackson.
O Herói Perdido faz parte da série que dá sequência a série Percy Jackson e os Olimpianos. Achei que seria complicado continuar já que os semideuses enfrentaram nada mais do que Chronos no fim da série. Mas, até que deu certo e agora eles arranjaram uma vilã mais terrível ainda. Embora eu ainda não saiba o que ela possa querer entre os mortais depois de todo esse tempo. Eu a imaginava uma senhora calminha, sabe? Pelo jeito, está entediada. Fazer o quê?
Nesse livro, não temos o Percy, que está desaparecido. Somos apresentados a novos personagens. O principal é Jason, filho Júpiter. Que perdeu a memória, embora dê para perceber que ele sabe de muita coisa, coisas que serão reveladas ao longo do livro. Gostei dele. Ele já é mais velho e não é tão temperamental como Percy. Ele é disciplinado como um soldado romano. E isso diz muito sobre ele.
Vamos para os dois coadjuvantes de luxo. Primeiro, Piper McLean, descendente de índios americanos, filha de Afrodite e com problemas com o pai famoso. Minha irmã detestou essa personagem, por isso, eu esperava bem menos. Mas, sabe, ela tocou meu coração. Porque seu poder é carisma. Afinal, ela é filha de Afrodite. Bonita e tal... Embora isso não interesse, acho a parte romântica de Riordan fraquinha. E que me perdoem os muito fãs, mas a Anabeth também é chatinha que dói. 
Piper convence as pessoas com suas palavras. E ela nem é convincente. Mesmo assim, consegue o que quer. Minha irmã deve ter detestado isso. Já eu me lembrei das partidas de RPG. Quem escolhe ter carisma alto, sempre se ferra, sabe. Porque o seu colega com força alta, joga um dado e sabe se matou o monstro, ele não tem que provar para o mestre que tem aquela força de verdade. Porém, jogadores com carisma, quando usam das atribuições de seus personagens, têm que inventar desculpas convincentes. Eles têm de fato provar que tem carisma. Não é só jogar um dado. E eu sempre achei isso injusto. (meu personagem tinha carisma alto, e eu não podia simplesmente piscar os olhinhos e conseguir o que queria). Mas a Piper pode, e eu achei digno. Senti-me de alma lavada. Até porque, para compensar, na batalha, ela é uma bocó. Mais atrapalha do que ajuda.
E tem também o Leo Valdez. Filho de Hefesto. Acho que todos aprendemos a amar Beckendorf. E como ele se foi, precisávamos de outro filho de Hefesto. Leo é engraçado para se defender. Sofreu para caramba. Por isso, quando o foco está nele, percebemos que é bem deprê. Ainda não sei se gosto dele. Mas, com certeza, seus poderes são fenomenais. 
Os vilões também me surpreenderam. Medeia, principalmente, como vendedora de um loja de departamento. A história de Medeia é controversa. Ela matou os próprios filhos, é verdade. Mas também não queria que sofressem com o pai o que ela sofrera. Jasão foi péssimo com a coitadinha, sabe? A mitologia tem dessas coisas, nem os deuses nem os heróis são perfeitos. Eles são humanos. E erram. E, outras vezes, são legais. Isso explica também o comportamento de Hera, que muitas vezes é uma chata. Ela atazanou bastante a Anabeth. Porém, ajuda muito esses novos heróis, chegou a ser babá de Leo quando ele era pequeno. E madrinha de Jason e a causa de sua perda de memória.
Enfim, gostei do livro. Riordan é engraçado e criativo. Escreve para jovens de maneira consistente e já convenceu a muitos deles a se interessarem por mitologia. O que, por si só, já é o máximo. Eu recomendo. Aliás, também comprei o Filho de Netuno, o próximo livro da série Os Heróis do Olimpo e vou já já começar a ler...

terça-feira, 12 de fevereiro de 2013

Lola e o garoto da casa ao lado


Que livro fofo, meu Deus! 
Eu estava merecendo uma coisinha gostosa dessas. Juro que estava!
A Lola é maravilhosa. Ela é filha adotiva de um casal gay de São Francisco e é maravilhosamente descolada. Adorei imaginar cada figurino dela, da capa de chuva às perucas coloridas. A moça tem um sonho de ir ao seu baile escolar de Maria Antonieta. Que posso dizer: autêntica! E na cidade certa, com os pais certos. Pais que, apesar de gays, são rígidos com sua educação. Enfim, é uma garota que eu gostaria mesmo de conhecer.
Tem também um namorado mais velho. Ele tem 22 anos. E, é claro que, como ele não é o garoto da casa ao lado, você vai ficar torcendo para que o namoro termine. Para que ele seja um idiota e tal. Mas não, ele tem lá seus problemas, mas é apenas jovem. Fazendo burradas de jovem e sendo inseguro, mais ainda por ter de manter uma pose de maduro com uma garota que o deixa louco, e ainda assim, sendo apenas jovem... Totalmente crível. Fiquei feliz por Max não se tornar um vilão.
E tem o Cricket, o garoto da casa ao lado por quem Lola foi apaixonada a vida inteira. (Quem já leu algo meu sabe que eu tenho um fraco por namoros que começam na infância). O rapaz é um nerd compridão que acompanha a irmã gêmea em competições de patinação no gelo pelo país. A família inteira vive em função dessa irmã. E ele fica meio de lado, mas nem liga. Pelo menos, não liga muito. Ele é um fofo. Dedicado e sincero. Um cara companheiro mesmo. Cricket também me convenceu por sua simplicidade.
Enfim, Stephanie Perkins mereceu o meu respeito. Diálogos fofos e reais. Personagens bem apresentadas. E detalhes, muitos detalhes interessantes, como a mão de Cricket que está sempre rabiscada de piloto preto, muitas vezes com uma estrelinha, todas as estrelas com um significado.

Este é o segundo livro dela. O primeiro foi Anna e o beijo francês que eu não li, mas acho que vou ler...