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quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Menina Bonita do Laço de Fita


Ainda sobre a questão da representatividade, hoje trago uma dica de livro infantil. Talvez o livro sobre consciência negra para crianças mais conhecido que temos no Brasil: Menina Bonita do Laço de Fita.

Nesse livro de Ana Maria Machado, um coelhinho branco e uma menina pretinha conversam sobre a origem da cor negra da menina, pois o coelho quer ter uma filha da mesma cor da menina. Para tanto, ele se pinta de preto, toma café, come jabuticaba, enfim, mete-se em várias situações até perceber que a cor da pele é uma questão genética.

A intenção da autora é clara como água, evidenciar a beleza negra, apesar de alguns clichês como "olhos de azeitona preta" e "pele lustrosa como a pantera na chuva" que remetem a uma ancestralidade africana não partilhada pelas crianças, o que é típico de uma autora branca tentando dar voz a uma beleza negra que ela mesma não reconhece nos seus detalhes. Mesmo assim, é válido apresentar uma protagonista feliz com sua autoestima e que se sente bonita com suas tranças.

Acredito que seja um belo livro para trabalhar em sala de aula. Para ler para sua criança em casa. Eu ainda não o tenho. Só o encontrei caro. Acho que é adotado em várias escolas e isso sobe demais o preço do livro no Brasil. Entretanto, é um livro ameno sobre a questão do negro e sequer trata sobre o racismo. Outro fator que o leva para a sala de aula, pois trata do assunto politicamente correto, mas não toca na ferida. 

Como assim? É triste dizer, gente, mas o racismo está entranhado em nós em vários pontos. Inclusive nas escolas. Inclusive nas professoras de pré-escola. Não acho que levantar essa bandeira sem ter sentido na pele essa condição é de todo pertinente. Eu seria mais uma autora branca tentando dar voz a um sentimento ao qual sou empática, mas que não compreendo de todo. Porém, é preciso dizer pelo menos que as crianças negras lidam com o racismo desde muito cedo. Triste dizer quantos casos já escutei que vão de comentários sobre o cabelo à capacidade intelectual da criança. 

A valorização da beleza negra é apenas uma das vertentes a ser assumida na luta contra o preconceito. Falar sobre racismo com crianças pequenas é importante também. Que ele existe. Que é errado. E que as pessoas erram. Mesmo as professoras em quem tanto os pequeninos confiam.

Mas o que diriam os pais de um livro sobre racismo na pré-escola? Afinal, repetimos o mantra de que no Brasil não existe distinção de cor, somente de classe social. Mas como lidar com a palavra negro quando tanta gente acha que é melhor (lê-se aqui "menos ofensivo") falar moreno? Como valorizar uma criança negra quando os coleguinhas entregam a ele um lápis "cor-de-pele" rosa? Estaremos preparados para falar sobre isso? Ou simplesmente para aceitar essa nossa ferida aberta? Ou nos comportaríamos como superiores ao fato e nos posicionaríamos como contrários ao discurso de assistencialismo de esquerda (seja lá o que isso signifique nesse contexto) que coitadiza as pessoas?

Passeando pela internet na pesquisa sobre o tema, encontrei esse blog Pretas Simoa, que traz uma lista interessante de livros sobre consciência negra para crianças. Eu me interessei pelo Minha mãe é negra sim! de Patrícia Santana, vou comprá-lo. É a história de um menino que sofre preconceito através da professora que sugere que ele pinte sua família negra de amarela que é uma cor mais bonita. Isso o leva a refletir sobre preconceito e a descobrir formas de lidar com a frustração e tristeza. 

Não li o livro ainda, mas a temática é muito mais incisiva. Acho que é uma boa continuação para a abordagem trazida em Menina Bonita do Laço de Fita. Em todo caso, mesmo que você enquanto pai não se sinta preparado para tratar especificamente da questão racial com seu filho, o livro de Ana Maria Machado vale pela delicadeza e pela criatividade. Seu filho, a depender da idade, provavelmente não vai nem perceber que é uma história sobre negros, mas a existência da protagonista negra já vai fazer uma pequena diferença na maneira como ele compreende o mundo.


Um comentário:

  1. Boa dica... Importante nos policiarmos sobre o assunto, já que o exemplo sai de casa.

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