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quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Trecho de Pra você guardei o amor

Mariana se demorou diante do computador de Milena. Estava quase na hora da virada. Não tinha vontade de descer. Não estava no clima para luau. Talvez, sentisse falta de Guilherme. Talvez, a tristeza fosse justamente por não sentir a menor falta de Guilherme. Andava pensando, sentia agonia maior se não conversasse com DarkSideGeek do que se não falasse com Gui. Quanto mais ela iria aguentar viver daquela mentira?
Mexeu nas coisas da amiga, passou um pouco mais de rímel. Viu-se de vestidinho delicado amarelo, cabelo comprido em trança, flores naturais adornavam o penteado. Estava bonita, é verdade, mas aquela ali não era ela. Olhou para o seu anel de compromisso. A pedrinha verde. Kryptonita.
─ Pequena, você não vai descer? – André, sempre André, que passava pelo quarto da irmã em direção à escada, deve ter visto a luz acesa e entrou. Encontrou Mariana pensativa.
─ Não sei, Deco. Estou sem clima...
─ Está triste? – Ele entrou no quarto e encostou a porta. – É por causa daquela montanha aparvalhada que você chama de namorado?
─ Não trata o Guiga assim, ele não merece. – Brigou com ele que, para não irritá-la mais, mudou de assunto. André foi até a janela. Ficou olhando para irmã, extremamente feliz, dançando com o namorado.
─ Eles são tão lindos juntos, não é?
─ São sim. – Mariana concordou com um sorriso.
─ Pensei que não iam mais conseguir se acertar...
─ Não tenho muita experiência nesse assunto, André, mas acho que quando um sentimento tão forte assim toma conta da gente. Deve ser difícil tentar se ajustar...
─ Concordo com você, Pequena. – Continuava olhando o casal pela janela. – Às vezes, a gente guarda um sentimento desde criança dentro da gente, ele cresce com a gente, molda-se ao nosso corpo, à nossa cabeça, à nossa idade e ainda assim é muito difícil se ajustar a ele... Parece que ele vai sair a qualquer segundo. Que vai tomar posse da gente por inteiro. Chega até a dar medo.
Mariana, mesmo sem olhar para ele, sentia novamente aquele calor. Mais uma vez iam entrar no território proibido da sua paixãozinha de infância. Ela lutava tanto contra isso, cada vez estava mais presa. Podia esquecer por segundos que era completamente alucinada por André, para que ele, imediatamente depois, com duas ou três palavrinhas, um beijo, ou um olhar, fizesse com que ela se lembrasse de todos os suspiros que dera nesses anos todos.
─ Acho, Pequena, que quando se tratar de amor, o único jeito é ter coragem para se entregar e aprender a amar... – Ele continuava olhando pela janela.
De repente, a contagem da virada começou lá fora. Dez. Nove. Oito. André virou e Mariana percebeu algo de diferente. Aquele não era o sorriso solícito de sempre. Ali havia certa dose de malícia, uma malícia encantadora. O olhar também era novo. Estava assustada. Sete. Seis. Cinco. Meu Deus! Eram os olhos que adivinham por dentro. Os olhos que viravam você do avesso. Que a faziam perder um pouco de si. Quatro. Três. Dois. André se aproximou dela e a abraçou com muito cuidado. Se ela fizesse qualquer sinal de impedi-lo, ele pararia, mas ela não fez. Um!
Os fogos começaram a estourar fora da casa e dentro de Mariana também. André fez um carinho no rosto dela, chegou perto do seu ouvido. O coração de Mari batia apressado.
─ Calma, Pequena. Calma. É só mais um ano que chega. Toda novidade faz barulho. – André sussurrou antes de beijá-la.
Uma lágrima desceu pelo rosto de Mariana, uma lágrima de felicidade. Ele sempre sabia exatamente o que dizer.

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